Em visita à Jequitibá, cidade conhecida como a capital do folclore mineiro, fomos convidados pela equipe do Folclorata (festival que promove o encontro de culturas populares) para ir acompanhar um ensaio da família Biano. Logo quando chegamos à comunidade quilombola de Lagoa da Trindade, encontramos um sítio de terra batida, uma casa amarela, muitos tambores e, claro, a serelepe Erlaine na varanda da casa.
Tem gente que nasce festa. Pois Erlaine nasceu na família certa. Seu avô Sebastião começou a Congada e seu pai Domingos seguiu formando a Guarda de Nossa Senhora do Rosário. Erlaine fez questão de nos mostrar um diploma comemorativo que o prefeito concedeu em homenagem ao seu pai. Com muito orgulho, ela conta que ele não foi só um grande salvaguardor deste saber na família, mas também um criador de danças, cantorias e rítmos.
É dele a autoria da Dança das Manguaras, uma apresentação feita com varas longas de pau (manguaras) extremamente enérgica, guiada pelo som de apitos ritmados, com coreografias diversas:
‘Meu pai já era de idade quando ele viu uma dança em uma festa [Vilão] e decidiu criar uma parecida, mas ao seu jeito. Colocou a gente para ensaiar. Fomos cortar as mangaras e aprender. A gente quebrava dedo, levava pancada na mão:
– Ai, ai, ai. Não vai dar certo pai.
– Vai sim que tudo na vida que dá certo é com dificuldade.E assim ele criou várias coreografias. Quando percebemos, só queríamos ensaiar. Acordávamos já animados: “Vamos bater manguaras?”. Então, pai decidiu dar esse nome à dança. Dança das Manguaras’.
Todo ano, em agosto, Durvalina Soares, sua mãe, é Rainha em Baldim. Foi em uma das festas da cidade, que o pai decidiu apresentar a nova dança. Tudo começa com uma batalha de varas em roda, segue-se um jogo com as manguaras no chão e, ao final, um altar feito com os paus cruzados ergue uma criança que segura o estandarte do grupo “Viva Nossa Senhora do Rosário. Viva!” gritam todos.
É com fervor que Erlaine diz ao nosso gravador: “Sou caixeira!” e narra o Congado como um jogo de ritmos, batidas e instrumentos:
“Eu sempre fui a caixa de guia. É mais difícil. Tem que bater firme para segurar todas as respostas. Tudo começa com a viola; eu pego o tom da viola, puxo e jogo pra trás. Pra caixa de resposta. E tem a marcação no meio. Depois da caixa de resposta, vêm os instrumentos menores. Se tiver o berimbau, começa ele lá atrás. Segue a alfaia. Depois a maraca. Se errar pra frente, erra tudo pra trás”.
Enquanto ela fala, meus olhos procuram os músicos que me acompanham em busca de alguma compreensão. Só mesmo vendo o ensaio para entender como tudo isso acontece de uma forma muito especial. Pedimos para ouvir Erlaine bater caixa. Não teve outra, veio o irmão, a irmã, a sobrinha: tocar em família.
Até a mãe veio cantar e trouxe consigo uma foto do dia em que foi consagrada Rainha. Durvalina não é apenas Rainha por conta do Congado. Não é Rainha apenas por ser mãe e chefe de família. É Rainha por coroar mulheres em territórios de homens-reis. O Congado costuma ser espaço de ocupação masculina. Mas, graças à ela, nesta família, é diferente:
‘A gente começou batendo lata de óleo. Fomos aprendendo e querendo entrar na Congada, mas não podíamos. Ai mamãe formou a Guarda de Moças. Ela começou a levar a gente junto nas suas apresentações como rainha. Os homens iam na frente, a gente atrás, acompanhando as batidas. Dávamos um banho nos homens.
Com o tempo, como se costuma dizer, “Deus foi tirando os mais velhos” e a Guarda ficou muito fraca de componentes. Quando eles ameaçaram parar, mamãe foi lá e perguntou: “Por que parar? Se as meninas sabem bater como ninguém? Une todo mundo e vamos bater juntos!”’
É Durvalina também quem nos lembra do que é mais importante sobre o Congado: sua raiz religiosa. E faz questão de nos contar que os cantos são orações. Com sua bela voz, pede à filha que busque o terço no quarto. Com ele em suas mãos, ela canta: “Ai, vamos, vamos. Vamos com muita alegria. Vamos com toda a coragem, com o Rosário de Maria”.
Durante toda essa conversa, notei que Erlaine apoiava parte do corpo em uma cadeira vazia. Cadeira que vestia com elegância um paletó. Aquela imagem ecoava a cada frase. Imaginei Mestre Domingos sentado ali, acompanhando o ritmo do coração apaixonado da filha:
‘Como meu pai dizia: “Eu posso morrer, mas eu quero que vocês não deixem o Congado acabar. Sigam”. Sigo, me embrando dos que foram com aquela saudade. Mas abro o coração e fico forte. É a minha raiz. É onde eu me sinto em paz. Enquanto depender de mim, eu vou seguir’.
Estávamos ali acompanhando também a vivência do músico paraibano Babilak Bah na comunidade. Este é o grande presente do festival Folclorata, promover encontros de artistas de todo o Brasil em comunidades como a dos Bianos. Uma troca de saberes e paixões pela música e nossa cultura. Pois foi Babilak quem desabafou para Mestra Durvalina: “É, com uma filha dessas, o Congado não acaba nunca“. E viva Nossa Senhora do Rosário! Viva!
Esse relato foi feito em parceria com a Folclorata, encontro que aconteceu entre os dias 11 e 13 de setembro de 2015, em Jequitibá, Minas Gerais. Obrigada especial à equipe do festival, à toda a família de Sra Durvalina e ao músico Babilak Bah. Fotos Viquitor Burgos e Ana Luiza Gomes. Sugestão de pauta de Suelen Silva.