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Convocatória Brincante: ensaios selecionados

Em parceria com o Coletivo Nação e a Revista Raiz, lançamos uma Convocatória aberta para fotógrafos durante o mês de fevereiro em busca de estimular o olhar para a figura do brincante:

O brincante é mais do que um festeiro, do que um folião, ele é um agente do brincar e atua de forma propositiva e criativa no fazer de uma manifestação cultural e popular. É ele quem cria as máscaras e as fantasias, desconstrói o ritmo dos tambores, reinventa as letras das marchinhas. É ele o corpo manifestante que ocupa a cultura como lugar de resistência, salvaguarda a herança recebida e a renova em seu próprio ato de brincar.

Com o objetivo de conhecer alguns desses brincantes pelo país, recebemos em um mês mais de quarenta ensaios fotográficos sobre o tema. Entre eles, cinco se destacaram por fotografarem seus personagens de perto e para além das suas fronteiras geográficas: um boi bumbá urbano em Belo Horizonte; um bloco de carnaval do manguezal na cidade histórica de Paraty; grupos de reisados com influências afrobrasileiras no interior do Rio de Janeiro; um resistente palhaço do tradicional Cavalo-Marinho da Zona da Mata pernambucana e religiosos da Serra da Canastra mineira em recepção à folia de reis.

As fotografias de Gui Christ, Hélia Scheppa, Lucas Magalhães, Marina Wang e Ratão Diniz traduzem rítmos, danças, cantos, fazeres e saberes transmitidos oralmente e coletivamente na vivência dos brincantes em sotaques das mais diversas origens pelo Brasil. Urbano e rural; religioso e profano;  tradição e criatividade; as fronteiras entre essas supostas dualidades são reinventadas em cada ensaio:

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Hélia Scheppa, “Seu Martelo”, 2014, Condado, PE

“Fiz um ensaio sobre o Mateus do cavalo-marinho e escolhi Seu Martelo, morador do município de Condado, mata norte de Pernambuco, para representar esse brincante. Considerado um teatro popular, o cavalo-marinho representa o cotidiano dos cortadores de cana-de-açúcar, com poesia, música, rituais e movimentos corporais”.

 

Gui Christ, "Hoje é Dia de Folia" 6 de janeiro de 2015 Piabeta, RJ
Gui Christ, “Hoje é Dia de Folia”, 2015, Piabeta, RJ

“Andando pelas ruas em blocos, desfilando com estandartes, tocando marchas e recitando versos, os Grupos de Reis do Grande Rio possuem uma maneira única de festejar, combinando tradições católicas com ritmos africanos – e ainda sob forte influência do carnaval carioca”.

 

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Ratão Diniz, “Uga, Uga, Há Há – Da Lama ao Bloco”, 2016, Paraty, RJ

“O Bloco da Lama existe desde 1986 e ganhou fama internacional por tratar de espantar as energias negativas e os maus fluidos para garantir o bom astral no carnaval, com seus brincantes cobertos de lama dos pés a cabeça”.

 

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Lucas Magalhães, “O Boi do Reinado Treze de Maio” 2014 Concórida, BH, MG

“O momento da saída do boi é aguardado ansiosamente pelos moradores do bairro. As pessoas tocam o boi pedindo proteção, o boi dança para elas, elas retornam com alguma doação. Mas há também quem provoque o boi e, como em uma brincadeira, ele corre pelas ruas, entra em algumas casas, sobe ladeira, desce ladeira e, na volta para a sede, é seguido por uma verdadeira multidão”

 

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Marina Wang, “Folia de Reis” 2016, São José do Barreiro,MG

“Os belos versos são transmitidos e preservados de geração em geração pela tradição oral e prosseguem como manifestação popular indo de porta em porta, cantando, brincando e confraternizando com os moradores através das oferendas”.

 

À todos que participaram e nos apresentaram a agentes de salvaguarda da cultura tão resistentes e criativos, fica aqui o nosso muito obrigado:

“Saúdo todos aqueles que sabem que a tradição
verdadeira não pode jamais ser confundida com
repetição ou rotina; que nelas nós não cultuamos as
cinzas dos antepassados, mas sim a chama imortal que
os animava” Ariano Suassuna, 1998


Convocatória Brincante: uma realização Andarilha + Coletivo Nação com apoio da Revista Raiz. Agradecimentos especiais ao fotógrafo Celso Oliveira e a todos os participantes!

 

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Poeira do Tempo: o Samba de Coco em Mundo Novo

Minha história com a comunidade quilombola do Mundo Novo, no interior de Pernambuco, já tem pouco mais de um ano. Quem acompanha meu trabalho conhece algumas histórias dessa vila simples, porém, rica no que diz respeito aos aspectos culturais que moldaram nossa sociedade.

Não sou um antropólogo, musicólogo ou etnógrafo especialista em cultura brasileira. Sou fotógrafo e narro o que me encanta: a força dos laços identitários que transcendem a consanguinidade e o parentesco, e vinculam-se às ideias tecidas sobre valores, costumes e lutas comuns.

Screen Shot 2016-02-22 at 8.42.01 AMTrabalhoPequena comunidade do Mundo Novo, Buíque, PE.

É em Novo Mundo que eu observo os pés pisarem com força a terra como uma alusão ao trabalho de pilar o chão de barro das senzalas. Neste ritmo sincopado, apresenta-se o Samba de Coco – que motiva tensões e, ao mesmo tempo, realiza o papel ritualístico de promover engajamentos políticos múltiplos e trânsitos de sentidos, encontros e desencontros interculturais.

Neste movimento, existem vários planos de significação: dança, ataque, conflito, ódio, revolta, medo, prazer, riso, esperança e liberdade. Sigo a dança e tento entendê-la melhor. Mas sou interrompido:

“Não é apenas assistindo o samba acontecer que você vai entendê-lo. É sentando para um almoço, ouvindo, conversando e escrevendo. É aí que se entende o porquê que o samba acontece”

 

Screen Shot 2016-02-22 at 8.38.27 AMDona Ivone sentada na cozinha da casa de taipa que seus avós construíram sambando.

Quem me conta é Dona Ivone, 79 anos, prima de Dona Zéfa, atual presidente da Associação dos Quilombolas do Mundo Novo. A família delas é quem mantém viva essa tradição familiar, sendo Ivone quem mais teve contato com os filhos e netos da formação do Quilombo. Por isso, é a ela que pergunto quando exatamente tudo começou.

“Tu ta perguntando a coisa errada. Não é que o Samba teve origem. Um menino não nasce pra falar? Acontece assim, de Deus, não é isso? Pois então! O samba aqui é isso. Aqui a gente nasce pra cantar e sambar. E pra trabalhar! Porque o Samba só tem sentido no trabalho. Pois se tu quiser saber do samba, eu te digo, tu tem que, primeiro, saber da história de nós”

Screen Shot 2016-02-22 at 8.38.38 AMFoto de Antônio Martiniano. Mundo Novo – Buíque – PE

A foto mais antiga é justamente a do fundador do quilombo, Antônio Martiniano, que fugiu de um engenho em União dos Palmares, Alagoas, foi recapturado e forçado a ir trabalhar num engenho de açúcar na Zona da Mata do Recife.

Screen Shot 2016-02-22 at 8.38.17 AMDona Zilda relembra cantos da infância. Mundo Novo – Buíque – PE

Quem me conta é dona Zilda, 60 anos, bisneta mais velha de Antônio e irmã mais velha de Zéfa. “Depois de um tempo, fugiu de novo, dessa vez com um grupo grande de escravos. Não se sabe a data.” Estima-se que chegou em Buíque, agreste pernambucano, nas últimas décadas do século XIX. Morreu ali mesmo, no Quilombo que ajudou a formar, com mais de 100 anos. A foto foi feita já no fim da vida de Antônio na década de 1950.

Screen Shot 2016-02-22 at 8.41.53 AMZenilda me mostra as saias feitas por ela. Mundo Novo – Buíque – PE

Já atualmente, é Zenilda, sobrinha de dona Zéfa, que ensina a tradição para as meninas e meninos do quilombo:

“Eu cuido do figurino, ensaio e ensino o que sei. Hoje não é como antigamente, só se dançava o coco no trabalho, quebrando milho, subindo casa de barro, vi minha mãe fazer muito isso. Mas eu gosto do samba mesmo é por que é uma brincadeira… mesmo trabalhando, a gente tá brincando! O coco tem muito a ver com a minha criancice. Aquela musica diz assim:

‘Eu vou cortar capim pra meu cavalo comer.
Eu vou fazer assim “chilinlin chilinlin”
Pra meu bem ver,’

Menino! Eu ia pra roça toda ‘emperequetada’ pra dar de comer ao cavalo só porque meu namorado, hoje meu marido, tava no caminho! (risos). Sambar o coco é isso… é voltar ser moça e brincar. ”

Atualmente, metade das meninas e meninos do quilombo viajaram para Minas e São Paulo em busca de trabalho. Entretanto, Zenilda me diz que as meninas fizeram questão de levar as saias que usam para se apresentar. “Elas disseram que vão sambar para matar a saudade.”

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A essa altura da conversa, Done Ivone já está me servindo um café com milho cozido e contando:

“O Coco, meu filho, é tudo aquilo que agente vive! É minha vida. Meu pai cantava minha vida, antes de eu nascer. Eu cantei a dos meus filhos e dos meus netos… quando eles ouvirem um coco, vão se ver na história, assim como nós tudinho aqui se vê”.

 

Está certo dona Ivone. Eu volto em breve e sempre. É aqui que me vejo envolto da poeira do tempo…

Por Tiago Henrique

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Encantarias, por Rodrigo Sena

Rodrigo Sena é fotógrafo, documentarista e co-diretor de “Encantarias”. Nascido no Rio, vive em Natal, onde investiga a fé, as religiões, as crenças, os orixás através da câmera. Por aqui, ele conta como muito começou em sua infância e compartilha alguns dos seus principais trabalhos:

• Por que fazer o documentário Encantarias?

Para diminuir distâncias. Venho de uma educação cristã e, quando criança, se eu cantava a música baiana com todos os seus orixás, levava bronca: “Não cante demônios!”. Quando adulto, procurei saber quem era esse tal de “orixá” ou suposto “demônio”. Fiquei fascinado ao conhecer os Encantados orixás, divindades celestiais que não tinham qualquer relação com demônios e vinham atrelados à uma questão sociocultural. Fiz a escolha de contar essas historias, valorizar e desmistificá-las através de trabalhos como Encantarias [2015], Festa de Deuses e Homens [2011], Herança [2012], entre outros.

mae de santoYaEnsaio “Afrobrasileiros”, por Rodrigo Sena.

• O que é o Coletivo Nação?

Coletivo Nação surge da vontade de somar através de um coletivo de fotógrafos de distintas regiões do país com o objetivo de documentar as idiossincrasias regionais do Brasil. Um combinando de projetos individuais e coletivos que trabalha particularidades e apresenta processos criativos em desenvolvimento como forma de comunicação, crítica e educação. É uma rede profissional apta a associar-se a outras instâncias e a criar plataformas de discussão com pesquisadores, curadores, críticos da imagem e também com o público não especializado.

Screen Shot 2015-11-03 at 8.15.59 AM Screen Shot 2015-11-03 at 8.17.24 AMEnsaio “Romeiro”, por Rodrigo Sena.

• Conte um pouco sobre como foi fotografar Nazaré da Mata.

Você faz contato com Recife, mas a raiz da cultura pernambucana está no interior do estado. Quando aprofundamos o trabalho, percebemos que a região de Nazaré da Mata, Carpina, Pedra de Fogo, Ferreiros é onde se encontra o imaginário nordestino traduzido em cores e tradição. Distante do ambiente cultural comercial, dos modismos e dos olhos da mídia. Há uma forte ligação entre o profano e sagrado, registro importante.

IMG_2100 (1)Screen Shot 2015-09-26 at 11.14.54 PMEnsaio “Cambinda do Cumbe”, por Rodrigo Sena.

• Para você, o que é “patuá”?

Parte de uma simbologia em forma de amuleto. Objeto pessoal íntimo, sagrado, proteção, blindagem.

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Para saber mais: Rodrigo Sena

 

No devagar depressa dos tempos_diretora Eliza Capai

“Meu movimento de autoexílio busca por compreender o aqui”, Eliza Capai

Ouvir a voz doce de Eliza é se deliciar com suas histórias e se inspirar na sua pessoa de coração inteiro, mesmo quando partido. Inteireza é a palavra. Imagino que, este movimento de estar totalmente presente por onde anda, traga muitos questionamentos, conflitos, angústias. Mas sinto que é o seu jeito de ser – em si. Nunca antes uma entrevistada me ensinou tanto sobre esse estado que busco: ser andarilha. Não só pelos seus deslocamentos físicos, mas pela sua vontade de se conhecer através do outro. Seja aqui, no sertão, do outro lado do mundo. Aliado a isso, Eliza transborda todas as fronteiras para aquela que a muito inquieta: a do gênero. Que prazer poder abrir essa Semana Especial Andarilha com sua voz, Eliza:

A: Você se apresenta como uma documentarista itinerante. Como jornalista, de onde vem a sua paixão pelo documentário?

E: Eu sou filha de fotógrafo e fui fazer curso de jornalismo. Bem no início da faculdade, eu que gostava muito de escrever comecei a ficar um pouco decepcionada de como me ensinavam o jornalismo. Tudo que era mais poético era cortado dos textos. Hoje acho que há mais espaço para outros tipos de jornalismo, mas naquele momento em 1999 ainda não tinha a popularização da internet e era bem diferente. Eu fui perdendo o interesse por esse texto e fui chegando perto da fotografia. Até que na primeira aula de vídeo, eu pirei. Eu já tinha tido a experiência de tentar tirar uma foto e não conseguir porque eu queria tirar 3 fotos na sequência e depois eu fui entender que eu estava mesmo pensando em um vídeo. Na primeira disciplina de audiovisual, eu curti muito.

Esse formato clássico de jornalismo (principalmente do jornal impresso), por um lado dá uma informação rápida, mas por outro acaba transformando a informação em números, em fatos isolados e, pra mim, acaba perdendo o que tem de mais interessante nos fatos que são as pessoas por trás desses fatos. Foi dessa curiosidade pelas pessoas que eu fui naturalmente me aproximando do documentário. Pelo desejo de escutar as histórias, de dar tempo para as pessoas falarem. Foi muito instintivo essa transição. Eu não tinha muito conhecimento sobre documentário, não tinha estudado isso, visto muitos exemplos. Eu fui em campo em busca do que seria a pauta ao invés de fazer virar um lead ou qualquer coisa mais formal. Busquei entender como essa pauta estava na vida das pessoas e, através das histórias pessoais, entender os assuntos pautados.

Eu também vim de uma família muito nômade, toda espalhada pelo mundo. Em vários cantos do Brasil e também fora. Eu nasci no Rio, cresci no ES e fui pra SP fazer faculdade e trabalhar. Comecei a dar umas escapadas e viajar. Primeiro o nordeste, depois, assim que eu me formei, comprei minha primeira câmera e fui de férias pra Bolívia. Comecei a fazer documentário por lá. Viajei muito fazendo matérias.

Em 2008, 5 anos depois de formar, eu estava com o coração dilacerado, tinha terminado com o primeiro namorado com quem eu morava junto. Foi então que eu consegui fechar alguns projetos: fazer um quadro para o GNT, um para o site da TAL e uma série para a revista Fórum sobre imigração de mulheres. Em 2007, a America Central era o primeiro subcontinente que passava a ter mais mulheres migrando do que homens. Não sei se isso era real, mas foi o meu gancho para essa viagem.

Eu fui do Panamá até NY em 9 meses escrevendo e acompanhando mulheres que tinham saído de casa em busca de uma vida melhor. Muitas vezes para dar aos filhos o que nunca tinham tido, outras vezes fugindo de situações de violência – em busca de um sonho americano, onde tudo ia mudar. E eu era uma mulher em busca de uma vida melhor também, fazendo um trabalho que acreditava, em busca de ser livre, de fazer um jornalismo que me desse tesão. Eu cheguei ao final entendendo muito sobre a migração de mulheres.

Essa viagem me marcou profundamente e eu me entendi como Andarilha nesse projeto. Foi mesmo terapêutico. Eu fazia várias entrevistas no centro das cidades e depois ia pra algum lugar paradisíaco naquele país para escrever a matéria e editar os videos que estava fazendo. Eu vivia uma felicidade de ter muito tesão pelo que eu estava fazendo. Eu ficava com a sensação de que ia dar, em algum momento, uma merda muito grande. Eu não acreditava que eu poderia ser tão feliz na vida, foi um sentimento que começou a virar um medo de sofrer qualquer tipo de violência. Mas cada vez foi dando mais certo e eu fui me conectando cada vez mais com pessoas incríveis. E aí eu tive um clique: a vida pode ser sim incrível.

Não teve então mais como eu não querer mais que essa vida fosse, no mínimo, incrível. Claro que temos momentos difíceis, altos e baixos. Tudo isso me afeta, mas existe um lugar de paz interna que é cada vez mais crescente. Ajuda quando eu estou conhecendo outros lugares, viajando, caminhando. Depois disso propus vários projetos relacionados a viagens. Tentar entender muito outras culturas, mas também entender a minha própria cultura. Meu movimento de autoexílio e viagem tem muito mais a busca por compreender o aqui do que os lugares onde eu vou. 

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A: Dentro desse interesse pelos movimentos imigratórios, como surgiu a ideia de fazer “Deslocadas”?

E: Quando eu estava no final da viagem de 2008, eu conheci a Val dentro do elevador. Por sermos as duas brasileiras, a gente começou a conversar e eu quis saber mais da história dela e fomos para um café. No que ela contou, eu vi um resumo de tudo que eu tinha vivenciado nos últimos meses sobre migrações de mulheres. E pensei: achei uma personagem que conseguia resumir em uma vida muito daquilo que estava pesquisando. Quer dizer, em duas vidas, na da Val e da sua mãe. Eu propus à ela fazermos um filme sobre sua história. Ela abraçou a ideia e usou aquele momento como uma terapia para ela. Ela ia voltar para o Brasil pela primeira vez depois de tantos anos e eu tive a sorte de acompanhá-la nessa viagem pelos lugares que ela tinha vivido no Brasil: São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco. 

A: Por que fazer o curta “Severinas” sobre ser mulher no sertão do Piauí?

E: Depois de investigar a migrações de mulheres, eu continuei me aproximando da temática de gênero. E as pautas são muito pesadas, são de violência. Não consigo aceitar que: por ser mulher, a gente ganhe menos; por ser mulher, a gente apanhe mais. Falar sobre gênero é falar sobre problemas.

No meio disso tudo, eu li uma matéria que falava sobre o livro Vozes do Bolsa Família, sobre como através do Bolsa Família, começava uma transformação da situação de autonomia feminina no Brasil. Eu achei incrível! Era uma oportunidade de falar sobre machismo em especial no sertão no Nordeste, uma região onde a escravidão deixou marcas profundas, como a diferença de renda entre homens e mulheres e também pelo legado da figura do Senhor, do poder masculino e da submissão muito forte feminina. O desejo foi falar sobre esse problema histórico a partir de uma possível solução que era esse movimento de autonomia feminina. Mulheres começaram a ter a única fonte de renda da família e isso teve um impacto grande. Quando esse alguém é a mulher da casa e não o homem é quando ela pode não se submeter tanto ao marido e negociar mais as questões em casa.

A base do feminismo, de Simone de Beauvoir, é a ideia de “ter a renda”. Se você é submissa economicamente, você não consegue levantar a voz. Se você vira então a única pessoa com renda fixa, o que acontece? E o desdobramento disso é: para as mulheres receberem isso, seus filhos têm que ir pra escola. Para mim, foi muito forte quando eu vi, de um lado, uma geração de mulheres da minha idade que tinham vivido a escravidão – com rostos e expressões de quem viveu essa escravidão – e, de outro lado, suas filhas bochechudas – bem nutridas, que vão para a escola. Ver essa transformação tão grande entre uma geração apenas foi muito especial.

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A: A mulher como tema, aliás, está em diversos trabalhos seus. Fico curiosa se isto não é também reflexo de questões pessoais suas como uma documentarista caminhando sozinha pela mundo. Como é o seu processo de trabalho?

E: Geralmente eu tento verba para uma equipe, não consigo e vou sozinha (risos). Posto isso, quando eu chego num lugar, eu sou muito instintiva e deixo rolar. Às vezes, eu acabo indo sem nenhum contato. E vou conhecendo as pessoas no vagão de trem, num papo com alguém do albergue, em um livro que eu lia e citava naquele autor. No caso do Severinas, por exemplo, eu tava sem decidir onde eu ia. Eu pensava em ir em Guaribas, onde começou o Fome Zero, mas ninguém atendia o telefone por lá, até que o orelhão na frente da pousada respondeu a minha chamada: “vem aqui que minha sobrinha te leva e em 10 minutos você já conheceu Guaribas inteira”. Foi justamente o que aconteceu, em meia tarde eu já tinha conhecido metade das personagens que estão em Severinas.

Existe mesmo essa abertura de ir caminhando. Se por um lado existe uma fragilidade muito grande de ser uma mulher andando sozinha com uma quantidade visível de equipamento/dinheiro; por outro, essa fragilidade eu sinto que pode ser um trunfo. Uma mina com uma câmera é uma real abertura; eu sinto que as pessoas se abrem de verdade, sem medo de mim. Se eu tivesse com uma equipe, talvez a disponibilidade dessas pessoas seria diferente, com receio de muita gente pra entrar na casa delas. Eu sinto que a minha fraqueza é minha força. 

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A: Dos caminhos que percorre como documentarista, qual te marcou mais e por que?

E: Eu não saberia dizer um só não. Eu acho que alguns me marcaram de forma muito única e me transformaram muito. Teve uma viagem que fiz em 2007 para a Amazônia e que foi onde eu entendi que eu poderia pagar minha viagem com meu próprio trabalho e isso me marcou profissionalmente, no sentido de acreditar, me jogar no que eu gostaria de fazer, que eu conseguiria verba para realizar esses trabalhos.

Em 2008, na America Central, eu acreditei que a vida poderia ser incrível e que prazer e trabalho poderiam se alinhar de forma contundente. Passei a entender, profundamente, uma temática; virando de certa forma uma especialista. Em 2010, eu fiquei 7 meses na África e foi onde surgiu meu primeiro longa que é o “Tão Longe é Aqui”. Se com a Val em 2008 não consegui ter fôlego para fazer o material virar um longa, em 2010, mais madura profissionalmente, consegui, através do financiamento coletivo, ir além e fazer um filme da viagem que tinha como objetivo principal ser uma série de matérias para o canal GNT. Em 2014 veio o “Severinas” que foi um exercício de ficar duas semanas no mesmo lugar, em um vilarejo. Nunca tinha ficado tanto tempo e criado relações tão profundas com as personagens. Isso me marcou.

E esse ano de 2015 também está sendo importante por fazer projetos de mais fôlego. Fiz um quadro de “Políticas Públicas Afirmativas” para o canal GNT. Eu fui atrás de abordagens positivas para falar de problemas nossos. Peguei temas tabus como aborto, drogas, educação sexual, sistema carcerários e fui buscar bons exemplos no mundo, em lugares onde essas questões tem soluções positivas. Espero que isso vire um longa em algum momento e será uma série para o Canal Futura.

Além disso, esse ano eu fiz junto com a Natalia Viana uma viagem pra Angola, cujo objetivo era investigar as empresas brasileiras lá e acabamos sendo investigadas também pelo governo de lá. Fomos falar com familiares de alguns presos políticos e com alguns ativistas. A nossa viagem virou uma coisa completamente diferente do planejado. Foi uma experiência super forte, por entender em primeira pessoa as questões que eu lia sobre a ditadura brasileira. Eu tive muita empatia com os jovens ativistas que conheci, essas pessoas não tinham proteção nenhuma, pelo contrário. Foi uma viagem muito forte, para entender a crueldade humana de uma maneira que eu nunca tinha conhecido. A nossa decisão na hora de fazer o produto final foi tornar essa fala nossa em primeira pessoa como parte da narrativa –para garantir credibilidade com as pessoas com quem a gente conversou. 

Então, eu acho que é um amadurecimento como documentarista. Estar muito presente na própria vida vai gerando isso: várias lembranças são muitos especiais e cada uma é um novo degrau para aprender algo novo. 


Obrigada, Eliza Capai e Cecília Garcia, colaboradora da nossa Rede Andarilha.

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Raquel Rodrigues convida Daniela Paoliello

Quando conheci a pesquisadora Raquel Rodrigues, ela fez questão de me mostrar um livro de uma artista, Daniela Paoliello. Convidar Daniela para uma entrevista foi também abrir espaço para apresentá-la de outra forma: através da Raquel. Esta é uma entrevista feita de um jeito especial, um diálogo entre 3 mulheres: editora, pesquisadora e artista. Que prazer:

Dos caminhos de Daniela Paoliello: algumas observações “de dentro”
Por Raquel Rodrigues

Talvez seja difícil, para mim, falar do trabalho de Daniela Paoliello sem tomar como ponto de partida nosso encontro. Dani – assim a reconheço e a torno íntima – foi uma colega de faculdade que optou por passos institucionais parecidos com os meus; alguém que se tornou uma parceira em muitos trabalhos e discussões, que aconteceram dentro e fora de sua produção, tal como pretendo apresentar aqui. É deste lugar, do lugar da amizade, que falo do seu trabalho artístico. Por isso, proponho desde o título falar de dentro. Sobretudo porque entendo que é do ponto de vista de dentro, que Dani se posiciona em seu trabalho. De dentro de um grupo social, ela fotografa a dança dançando, registra com o corpo, trabalha com o coração.

Eu e Dani fazíamos parte de um grupo nas Ciências Sociais, interessadas em pensar as artes e suas interações com a cidade, com o social. Anos depois, eu caminhei para Sociologia e História, enquanto Dani se adentrou pela Antropologia Visual, pelos filmes de Jean Rouch, pelas pesquisas etnográficas que logo lhe serviram de método e filosofia. A câmera fotográfica a acompanhava em um registro interessado, mas não pretencioso. A cada ensaio concluído e editado, tal como os conhecemos hoje, são centenas de experimentações, momentos e instantes captados. Editar, tratar, organizar e montar são tão importantes etapas do trabalho quanto pensar conceitualmente num trabalho e desenvolver seu projeto em palavras. Mas é no fazer artístico que Dani se realiza, nesse contato com o mundo, no corpo que se movimenta e que se lança quase a um abismo, como ela mesma gosta de enfatizar.

Da antropologia vieram metodologias que a fizeram entender o nativo e, assim, estranhá-lo em campo. Quando a pessoa faz antropologia com o coração, ela faz arte. O mergulho é tal, que se perde a noção da menina, loira, branca diante de um grupo social distinto dela. Refiro-me, especialmente à sua série “Neguin”, que poderia ser tudo isso, mas não só, já que ela extrapola as questões sociais e se torna um trabalho de afeto. Mérito da artista que dispôs de sensibilidade para nos dar a ver o olhar e toda uma atmosfera daqueles garotos. A performance do retrato se dá quando há, de fato, o encontro entre o olhar da fotógrafa e aquele que ela retrata – um encontro dos mais afinados. Foi no embalo da dança, do break, e durante várias conversas que a amizade se tornou obra, obra capaz de fisgar o espectador que se depara com estes momentos.

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A: Como surgiu a fotografia na sua vida?

DP: Quando a fotografia surgiu pra mim, eu era só uma adolescente com uma câmera na mão. Gosto de falar sobre como a fotografia se solidifica, sobre o momento em que ela me acerta, me tonteia, reinventa minhas relações. No último ano do curso de Ciências Sociais, eu me interessei por Antropologia Visual e decidi que minha monografia seria na área. Foi quando conheci a cena do Hip Hop em Belo Horizonte, e comecei a frequentar e fotografar o duelo de MC’s que ocorria todas as sextas-feiras embaixo do viaduto Santa Teresa. Foi nesse momento que descobri a potência da fotografia como construtora de experiência. Aí sim é que ela me acerta e muda tudo! Nesse momento é que o fazer fotográfico começa a se formar pra mim como uma prática produtora de abalos, de vivência, de relações.

A: Você é formada em Sociologia (Ciências Sociais), com ênfase em Antropologia Visual. Como os estudos influenciam seu trabalho?

DP: É a partir da Antropologia Visual que eu começo a estruturar minha prática. É pela ideia de trabalho de campo que eu pauto minha postura como fotógrafa. Ir a campo é desmontar ideias preconcebidas, hipóteses, é necessário ativar a intuição, se render a um tempo diferente do seu. Tem a ver com assumir o erro, o acaso, o desabamento das expectativas. E aliás, o erro acaba sendo essencial, pois induz o processo à experiência, mais do que à pré-programação e dá espaço ao acontecimento, exigindo paciência e adequação do tempo frenético da mente ao tempo dilatado da criação.

(1)Neguin_01(1)Neguin_11Cinco fotos acima fazem parte do ensaio “Neguin”, 2012

A: O que é o ensaio “neguin”?

DP: O ensaio “Neguin” se inicia com um corpo que deseja deslocar-se em direção ao encontro de outro corpo, em busca de descobrir qual mundo surge deste encontro, esse mundo entre, que só se dá na relação, que não é o meu mundo nem o de Neguin. E que só se revela a partir de um movimento de encontro, onde os corpos se modificam mutuamente, em um retorno a si próprio que se dá pela mediação do outro.

Conheci o Jonathan (Neguin) no duelo de MC’s que passei a frequentar em 2011. Algum tempo depois, sugeri fotografar seu dia-a-dia, sua casa e treinos de dança. Começou então um período de imersão total, fui absorvida pelo seu mundo. Ia aos treinos de dança três vezes por semana, passava as tardes de sábado em sua casa, com sua família e amigos. Frequentava os eventos de hip hop, as festas, os campeonatos.

Eu dançava como condição para o fotografar. Sem descanso, treinava, aprendia os movimentos que meu corpo em breve repetiria para acompanhar o corpo do outro. Só quando estivéssemos exaustos é que tudo faria sentido. Só depois da exaustão é que o movimento ficaria bom, que a foto ficaria boa, que a conexão se faria, que eu conseguiria me mover, que o transe compartilhado poderia ser registrado, e as intensidades efetuadas em imagem.

Os treinos eram silenciosos, com trocas de olhares frequentes que ritmavam os movimentos, alinhavam os corpos e as intenções. Minha vida ficava em outro lugar, oposto àquele. Eu adorava o silêncio, o estranhamento, a confiança que se alargava de pouco em pouco. Meu corpo transformava-se. Ganhava elasticidade, confiança, equilíbrio. Contestavam meus gestos, meu mover, ensinando-me outros códigos, outras maneiras de me deslocar.

O processo envolvia um ato de paixão, de entrega total; se dava a partir de um trabalho cuidadoso de observação, relação e sensibilidade, que implicava em olhar e sentir, cruzar uma fronteira, ser aceito, modificar o outro e alterar as próprias referências culturais.

O trabalho “Neguin” resulta de uma história sobre a busca pelo outro, sobre falar dessa experiência sutil, sensível que se dá no encontro. Sobre intuição, vontade, vertigem. Neguin me emocionou desde a primeira vez que o vi dançar, me fascinou pela expressão facial e corporal e a energia que levantava. O transe que represento no trabalho talvez seja muita mais meu do que dele. São dois corpos em queda. Dois corpos vibrando em movimento – ritmados ou em descompasso – que orbitam em torno de múltiplos afetos, onde o que importa é ascender em direção ao outro, realizar a potência de afetar e ser afetado.

Jonathan Canito_Neguin_003BBOY, NEGUIN, CANITO, TREINO, BREAKJonathan Canito (Neguin) e Nicolas Cabaneco_004BBOY, NEGUIN, CANITO, TREINO, BREAKSérie de retratos de Neguin e Cabaneco, 2015

A: O ensaio Neguin foi finalizado em 2012 e hoje você desenvolve uma série novamente com ele e outros b-boys em uma linguagem mais documental. Você consideraria essa série como uma foto reportagem ou como uma documentação desse reencontro?

DP: Eu não chamaria de reportagem. Minha relação com os meninos vai muito além. É vivência, é troca, amizade. Os meninos entraram na minha vida e eu entrei na deles, pedindo licença, com muito negociação. Eu entrei na vida deles pelo silêncio e não pela palavra. Foi pelo corpo, pelo olhar, pelo movimento.

Acredito em trabalhos que são guiados pelo afeto, produzidos em um tempo muito distinto do tempo da reportagem. A pergunta pra mim não é por que fotografar b-boys? Eu não fotografo b-boys. Eu fotografo o Jonathan, o Cabaneco, o João, o Ligero, o Paulinho. Vai muito além do registrar. É sobre o desejo de estar junto. E é lindo ver esse grupo crescendo, ver como a vida de cada um se desdobra, não só a vida de dançarino, mas as histórias pessoais. E em algum ponto a gente se reencontra.

No Concórdia, em Ipanema, no Canta Galo, nas salas de treino, na casa do Neguin ou em qualquer ladeira sem nome. A fotografia é o que nos aproximou, mas não é mais nosso elo. Eu continuo fotografando pelo desejo de compartilhar um pouco dessa vida pulsante, da vertigem que esse encontro produz em mim. É minha forma de gritar: esses meninos são foda, são talentosos, são incríveis! Em poucas palavras, é sobre o desejo de ver o outro, o que pra mim implica em se deixar ver também. Alcançar e ser alcançado. Em uma reportagem acho que isso não acontece. Mas aqui é impossível ver sem se mostrar.


Daniela Paoliello nasceu em Belo Horizonte em 1988. Graduada em Ciências Sociais pela UFMG e mestranda no programa de ARTES da UERJ. Foi contemplada com o XIII Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia. Participou de diversas exposições em MG, RJ e SP. Além de contar com publicações virtuais na LatPhotoMagazine, L’oeil de La Photographie, Revista OLD, Convocatória Paraty em Foco, dentre outras. Publicou em maio de 2015 seu primeiro livro: “Exílio”.

Raquel Rodrigues também é natural de Belo Horizonte (MG) e vive e trabalha no Rio de Janeiro, onde atualmente cursa o mestrado em História e Crítica de Arte na UERJ. Cientista Social e Artista Plástica de formação, Raquel atua como pesquisadora em artes, interessada nos temas artes e instituições, colecionismo, arte contemporânea e curadoria.