Todas as publicações com a tag: cultura brasileira

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Poeira do Tempo: o Samba de Coco em Mundo Novo

Minha história com a comunidade quilombola do Mundo Novo, no interior de Pernambuco, já tem pouco mais de um ano. Quem acompanha meu trabalho conhece algumas histórias dessa vila simples, porém, rica no que diz respeito aos aspectos culturais que moldaram nossa sociedade. Não sou um antropólogo, musicólogo ou etnógrafo especialista em cultura brasileira. Sou fotógrafo e narro o que me encanta: a força dos laços identitários que transcendem a consanguinidade e o parentesco, e vinculam-se às ideias tecidas sobre valores, costumes e lutas comuns. Pequena comunidade do Mundo Novo, Buíque, PE. É em Novo Mundo que eu observo os pés pisarem com força a terra como uma alusão ao trabalho de pilar o chão de barro das senzalas. Neste ritmo sincopado, apresenta-se o Samba de Coco – que motiva tensões e, ao mesmo tempo, realiza o papel ritualístico de promover engajamentos políticos múltiplos e trânsitos de sentidos, encontros e desencontros interculturais. Neste movimento, existem vários planos de significação: dança, ataque, conflito, ódio, revolta, medo, prazer, riso, esperança e liberdade. Sigo a dança e tento …

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Encantarias, por Rodrigo Sena

Rodrigo Sena é fotógrafo, documentarista e co-diretor de “Encantarias”. Nascido no Rio, vive em Natal, onde investiga a fé, as religiões, as crenças, os orixás através da câmera. Por aqui, ele conta como muito começou em sua infância e compartilha alguns dos seus principais trabalhos: • Por que fazer o documentário Encantarias? Para diminuir distâncias. Venho de uma educação cristã e, quando criança, se eu cantava a música baiana com todos os seus orixás, levava bronca: “Não cante demônios!”. Quando adulto, procurei saber quem era esse tal de “orixá” ou suposto “demônio”. Fiquei fascinado ao conhecer os Encantados orixás, divindades celestiais que não tinham qualquer relação com demônios e vinham atrelados à uma questão sociocultural. Fiz a escolha de contar essas historias, valorizar e desmistificá-las através de trabalhos como Encantarias [2015], Festa de Deuses e Homens [2011], Herança [2012], entre outros. Ensaio “Afrobrasileiros”, por Rodrigo Sena. • O que é o Coletivo Nação? Coletivo Nação surge da vontade de somar através de um coletivo de fotógrafos de distintas regiões do país com o objetivo de documentar as idiossincrasias regionais …

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Raquel Rodrigues convida Daniela Paoliello

Quando conheci a pesquisadora Raquel Rodrigues, ela fez questão de me mostrar um livro de uma artista, Daniela Paoliello. Convidar Daniela para uma entrevista foi também abrir espaço para apresentá-la de outra forma: através da Raquel. Esta é uma entrevista feita de um jeito especial, um diálogo entre 3 mulheres: editora, pesquisadora e artista. Que prazer: Dos caminhos de Daniela Paoliello: algumas observações “de dentro” Por Raquel Rodrigues Talvez seja difícil, para mim, falar do trabalho de Daniela Paoliello sem tomar como ponto de partida nosso encontro. Dani – assim a reconheço e a torno íntima – foi uma colega de faculdade que optou por passos institucionais parecidos com os meus; alguém que se tornou uma parceira em muitos trabalhos e discussões, que aconteceram dentro e fora de sua produção, tal como pretendo apresentar aqui. É deste lugar, do lugar da amizade, que falo do seu trabalho artístico. Por isso, proponho desde o título falar de dentro. Sobretudo porque entendo que é do ponto de vista de dentro, que Dani se posiciona em seu trabalho. De dentro de um …

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“É muito interessante a descentralização da produção cultural no Brasil”, Maureen Bisilliat

Era uma manhã de segunda feira quando fui convidada a acompanhar uma entrevista com Maureen Bisilliat, artista conhecida por sua importante contribuição à fotografia brasileira. Para a minha surpresa, Maureen topou prolongar a conversa e falar para o Andarilha, contando um pouco sobre suas mais recentes andanças; sem querer muito visitar o passado, mas sim curiosa, atenta às mudanças, vivendo o agora. Nos encontramos onde o antropólogo Darcy Ribeiro lhe deu a tarefa de caminhar pelo Brasil e por alguns países como Peru, Equador, Bolívia, Guatemala e México em busca de construir o acervo do Pavilhão da Criatividade, no Memorial da América Latina, em São Paulo. “O Darcy nos escolheu: eu, Jacques, meu marido, e o arquiteto Antonio Marcos Silva. Naquela época, viajávamos por estradas muito ruins; quanto mais difícil era o caminho, melhor, mais aventura, mais apreço às peças compradas. A ideia surgiu pois eu tinha feito muitas fotos para as revistas em lugares bem distantes e eu abria os caminhos para as pesquisas”. Fotos da série “Bumba-meu-boi na Festa de São João” (1978). Acerco …

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Super Casas, por Fabiana Moraes

Não conheci Fabiana pelos seus textos, mas sim pelas suas imagens – o que pode ser considerado um pecado. A jornalista pernambucana já lançou vários livros (Os Sertões, Nabuco em Pretos e Brancos, No País do Racismo Institucional e O Nascimento de Joicy) e, como reporter especial do Jornal do Commercio em Pernambuco, venceu recentemente o prêmio Petrobrás de Jornalismo com a série Casa Grande e Senzala. Foi através de fotos das casas que ela visita em reportagens que conheci seu olhar para o Brasil. Registros de andanças que ela reúne de forma irônica na hashtag #supercasas. Onde anúncios imobiliários de modernos apartamentos se encontram, Fabiana sapeca as imagens das mais belas casas populares. Só mesmo alguém atento às possibilidades de leituras que as redes sociais proporcionam para garantir o tom político tão inerente à este tema: a morada. • Como jornalista, de onde surgiu a ideia de fotografar casas pelo Brasil? Nunca tive nenhuma pretensão de fazer um levantamento sobre moradias populares. Mas, ao entrar tantas vezes nas casas das pessoas – já se vão mais de 15 anos pedindo licença e sentando nos sofás ou nos bancos …