Eu tenho um sonho: conhecer a região do Cariri no Ceará. Tudo começou quando conheci o Mestres Navegantes, pesquisa de manifestações musicais tradicionais e populares pelo Brasil, idealizada pelo músico Betão Aguiar.
Ao ver o vídeo de Mestra Margarida Guerreira, me encantei por conhecer uma região através de suas músicas e dos saberes de cada um desses Mestres. Na época, eu trabalhava na Trip Editora e soube que Betão Aguiar iria tocar em uma das festividades que estávamos organizando. Fui lá me apresentar para dizer: “Betão, esse trabalho de pesquisa e registro é muito importante”. Quando soube que muito foi inspirado também na figura de seu bisavô, fiquei ainda mais feliz em recebê-lo aqui no nosso Diário de Bordo:
A ideia do projeto Mestres Navegantes surgiu do prazer de vivenciar a simplicidade, riqueza de espírito e musicalidade de mestres populares que tive oportunidade de conhecer nos últimos anos. Também nasceu do sonho que outros e outras pudessem ver e viver tais belezas ou, ao menos, sentir o gostinho, mesmo que não possam ir visitar pessoalmente os lugares onde vivem essas pessoas.
Desde muito pequeno tive contato com tradições musicais de diversos estilos devido à minha criação soteropaulistana na baía da Guanabara, o que possibilitou aos mesmos olhos curiosos assistir tanto ao Ilê Ayê passar, quanto às festas do Divino com suas fanfarras, cortejos e procissões. Filho de cantor e produtora de shows, foi na música que encontrei um caminho para minha vida e nele sigo feliz até hoje.
Equipe registrando o mestre Paizinho, edição São Luiz do Paraitinga – Fotógrafa: Patrícia Garcia
Na virada do milênio, eu estava ainda sob impacto da surpreendente descoberta da diversidade cultural de Pernambuco com seus maracatus, cocos e afoxés (desses últimos só havia tido contato com os da Bahia – dos Filhos de Gandhi, Camafeu, Gerônimo, Gil, Edil Pacheco e os irmãos Gomes), quando tive o privilégio de participar de uma filmagem, acompanhando o cantor Moraes Moreira, para o projeto Musica do Brasil, do Hermano Vianna. Além dos vídeos, o projeto lançou um livro e uma caixa com discos contendo o maior mapeamento da pluralidade musical do nosso país que eu já havia visto e escutado na vida.
Foi algo que me marcou muito e que reconheço como a maior inspiração para a realização deste projeto, ao lado das Missões de Pesquisas Folclóricas do Mario de Andrade e do Documentário Sonoro do Folclore Brasileiro de Marcus Pereira, que vim a conhecer posteriormente.
Penitentes de Barbalha, edição Cariri – Fotógrafo: Samuel Macedo
Mestres Navegantes não se propõe a ser uma pesquisa academicamente correta; trata-se de uma iniciativa simples, arriscada e desprendida, de mostrar um olhar sobre a musica produzida por esses mestres nos dias de hoje, um retrato sonoro dessas culturas que fique para a perenidade do meio digital.
A primeira edição do projeto foi dedicada à cultura de São Luiz do Paraitinga, SP, cidade que acolhe minha família materna há cinco gerações, desde que meu bisavô Mario Aguiar foi indicado para o cargo de juiz da cidade, na década de 1930. Apaixonado pelo lugar, onde criou filhos e netos, tinha o hábito de registrar suas impressões sobre o povo e a cultura local.
Por tanto gostar de conviver e prosear com os habitantes de lá, chegou a publicar um livro no final dos anos 40 sobre os costumes da Cidade Imperial, do qual extraí alguns textos que podem ser encontrados no livreto que acompanha caixa com os discos e filmes produzidos. No total são 5 discos de coletâneas com cerca de 100 musicas, 5 filmes, 5 programas de radio com os 17 grupos de Congada, Moçambique, Jongo, Brão, Calango, Adoração aos Presépios e Folia de Reis que registramos.
Mestra Maria do Horto, edição Cariri – Fotógrafo: Samuel Macedo
Na segunda edição, seguimos para o Cariri cearense, onde passamos tardes e noites memoráveis de brincadeiras ao longo de alguns anos de visitas e pesquisa. Foram produzidos 10 discos, 10 filmes e 5 programas de radio com os 53 grupos e mestres de Reisado, Banda Cabaçal, Maneiro Pau, Coco, Guerreiro, Penitentes, Inselenças, Repente, Cordel, Bacamarte, Embolada, Banda de Pife que encontramos no caminho. Um lugar singular que abriga grandes mistérios, lendas e mitos, onde contamos com a parceria fundamental da querida Dane de Jade e dos amigos da “Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Cariri”.
Irmãos Aniceto, edição Cariri – Fotógrafo: Samuel Macedo
A terceira edição foi realizada no estado do Pará, onde contamos com a parceria de dois especialistas no assunto, os músicos e pesquisadores Junior Soares e Edgard Chagas. Juntos traçamos uma escolha incompleta por natureza, que abrange apenas uma parte dos grupos existentes e ativos nas regiões da Ilha do Marajó e do Salgado Paraense. Gravamos 6 mestres e grupos de boi bumbá e 6 de carimbó para compor dois discos, coletâneas com 52 musicas que passeiam pelo imaginário caboclo e pelo universo do pescador, dos rios, do mar, das sereias e botos, do trabalho no campo e na lavoura.
Menino e o boi do boi bumbá de Ourém, edição Pará vol.1 – Fotógrafo: Samuel Macedo
Ao longo desses seis anos de trabalho foram lançados 17 discos com cerca de 400 faixas, 15 filmes, 10 programas de rádio e mais de 40mil discos distribuídos gratuitamente entre os grupos, mestres e comunidades que visitamos. Todo conteúdo pode ser acessado de graça nos canais do “Mestres Navegantes” no soundcloud, vimeo e facebook.
O projeto pretende seguir navegando por onde os ventos da nossa rica cultura popular estiverem soprando, aonde esses mestres ainda estiverem levando sua musica adiante, de geração em geração. O próximo destino ainda não está totalmente confirmado, mas as velas e a tripulação já estão preparadas para embarcar nos mistérios e alegrias das próximas expedições.
Sigamos festejando!
Betão Aguiar
Obrigada, Betão Aguiar, Cecília Garcia, Samuel Macedo. Foto de abertura: Menino tocando curimbó em Vista Alegre do Maú, edição Pará vol.1 – Fotógrafo: Samuel Macedo