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Aberaldo e uma família em manifesto pela herança

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Se existe um homem sertanejo, ele se chama Aberaldo. Conhecido pelo seu primeiro nome. Lardo, para a família e amigos próximos. Aberaldo Santos Costa Lima, nascido em Ilha do Ferro, Alagoas, é filho de Costinha, poeta e fazedor de barcos, sobre quem já contamos aqui.

A padaria local só recebe pães um dia na semana e o mercado mesmo só em Pão de Açúcar, cidade do outro lado do rio. Por isso, é difícil ir à Ilha e não conhecer a casa de Aberaldo, afinal, é sua esposa, Vânia, quem recebe muitos dos visitantes para o café, almoço e janta que ela prepara todos os dias no fundo da casa, em uma mesa larga de madeira no quintal repleto de restos de galhos, raízes, folhas, casulos e troncos retorcidos, muitos à espera de Aberaldo e sua imaginação.

Screen Shot 2015-08-02 at 1.23.11 PMScreen Shot 2015-08-02 at 1.25.36 PMAteliê de Aberaldo, em Ilha do Ferro, Alagoas

Enquanto Vânia nos recebe com sorriso largo e – só mesmo alguém que já visitou o sertão ou um interior de cerrado vai entender – com muita fatura nas refeições; Aberaldo senta-se no canto oposto da mesa, meio desconfiado. Observa-nos atento, escuta mais do que fala. Enquanto Vânia me faz lembrar das minhas raízes mineiras, Aberaldo me chama a atenção: você está no sertão.

E é de lá que ele gosta. E de lá não planeja sair. Decisão que, pelos poucos dias que passei na Ilha, compreendi: não sair é, antes de tudo, uma manifestação. Pela sobrevivência da herança, da terra e da cultura. Quando chegamos, um de seus filhos tinha acabado de se mudar. “Foi trabalhar em uma Usina no Pará”, conta a mãe de coração partido.

Screen Shot 2015-03-27 at 6.43.36 AMScreen Shot 2015-08-02 at 1.27.43 PMCortina de ex-votos, criação de pai para filho

Coração partido fico também eu, ao ver a maioria das peças que me chamaram atenção no local foram feitas pelo filho talentoso de Aberaldo. Aliás, a cortina de ex-votos, foto que tiramos na casa onde nos hospedamos em Ilha do Ferro, é de sua autoria. Aprendeu com o pai.

Screen Shot 2015-03-27 at 6.44.43 AMDas cores que Aberaldo escolhe para suas esculturas

Enquanto muitos escultores seguiram fazendo cadeiras e bancos – a assinatura do trabalho em madeira na Ilha; Aberaldo fez seus próprios passos. Da madeira que encontra, esculpe corpos retorcidos com várias cabeças, incontáveis pés, com ou sem braços, membros deformados, olhos puxados, cabelos negros, queixos protuberantes, bocas carnudas.

aberaldo2aberaldo1Memória de algumas das obras de Aberaldo já vendidas

Trouxeram-nos um álbum de recortes, com uma sequencia de fotos de suas obras já vendidas para colecionadores e galerias pelo Brasil. Entre imagens de criações, encontro também recortes com fotos de cada um dos visitantes mais frequentes, pessoas com quem fizeram amizades e que retornam à Ilha de tempos em tempos e deixam sempre saudades.

Screen Shot 2015-08-02 at 1.27.04 PMScreen Shot 2015-08-02 at 1.27.20 PMDetalhes do álbum de fotos e recortes de obras de Aberaldo ao longo de sua trajetória

Pergunto à Vânia se ela já havia se aventurado também no trabalho com a madeira. Ela corre dentro da casa e volta de lá com uma caixa cheia de bordados. Conta que gosta mesmo é dos panos e tecidos em que exercita a técnica do “boa noite”, bordado batizado com o nome de uma flor típica da região. Em Alagoas, o chamado rendendê chegou como herança européia nas comunidades ribeirinhas do São Francisco, característico pelo seu traçado geométrico.

Screen Shot 2015-03-31 at 10.47.41 AMScreen Shot 2015-03-27 at 6.44.25 AMScreen Shot 2015-08-02 at 1.49.34 PMVânia e seus bordados “boa noite” inspirados no desenho da flor que nasce em seu quintal

Não é só ela, a filha Mariana também tem a agilidade da mãe com a linha, agulha e tesoura. É ela quem ainda resiste no povoado, com os pais. Vira e mexe, visita um dos irmãos em Belo Horizonte e responde à mensagens de possíveis compradores de trabalhos dos pais pelo telefone.

Quando cheguei em Ilha do Ferro, a antena de telefonia móvel tinha sido recém instalada, mas não estava funcionando. Passei alguns dias totalmente sem sinal e sem conexão. Desliguei não só do celular como do tempo.

Passamos nossas noites na casa de Vânia e Aberaldo sentados em cadeiras de balanço, ouvindo as histórias do amigo Zé e exercitando músculos faciais que mal sabíamos que ainda existiam: morremos de rir. Quando me lembro que foram apenas 3 dias, acho que estou errada. Me parecem meses. Mas meses já se passaram da minha visita à essa família que guardo com carinho na memória. Espero, em breve, retornar. Pois o retorno é também um manifesto. Pela cultura local, pelas boas prosas, pela riqueza deste lugar chamado sertão, pela herança.

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 Texto: Ana Luiza Gomes Fotos: Viquitor Burgos. Obrigada: Adélia Borges, Celso Brandão, Bruno Nunes e Viquitor Burgos. Em especial: obrigada, Mariana, Vânia e Aberaldo.

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2 Kommentare

  1. Neusa, a Vó sagt

    Encantadora a sua narrativa… Aumenta ainda mais a vontade que tenho de conhecer esse Brasil que você descreve. Alguém de poucas viagens como eu e que nessa altura da vida sonha com idas a lugares assim, para conhecer de perto pessoas e artes como essas.
    Parabéns pelo olhar e grata por compartilhar.
    Neusa, a Vó

    • analuizagomes sagt

      Obrigada pela mensagem carinhosa, Neusa. Vamos seguindo caminhando por aqui, é um prazer. Abraço, Ana

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