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Selma Maria: “o meu território sou eu”

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Conheci Selma pesquisando sobre gambiarras. As tais gambiarras que não se definem no dicionário mas no cotidiano brasileiro de quem improvisa para criar, de quem coleciona cacarecos e reinventa objetos, de quem tem muita história para contar. Essa é Selma. “Tridimensional”, descreveu uma amiga em comum. Difícil um texto e fotos transmitirem seu jeito ambulante de viver em poesia. Vou arriscar.

Ela me disse que tudo começou assim, de ver seu pai de chinelo, olhando para os próprios pés, cabeça baixa, com o ouvido colado no rádio, escutando um jogo do Palmeiras. Herdou a paixão pelo futebol. Herdou a mania de colecionar chinelos. Herdou a busca constante pelo que ela chama de “homens rústicos”, esses que vão em busca de lhe ensinar como fazer um brinquedo.

Na tentativa de dar respostas às minhas perguntas, Selma entende muito sobre suas próprias andanças, sobre as suas pesquisas sobre brinquedos pelos sertões brasileiros, sobre suas coleções de objetos cotidianos, sobre sua paixão por palavras, poemas e livros, sobre sua vida para contar histórias.

Screen Shot 2015-05-06 at 7.58.32 AMSeus carrinhos de exposições ambulantes

Seu pai foi vendedor de livros, seu avô pipoqueiro. Desconfio que foi daí que surgiu a ideia dos seus carrinhos ambulantes. Cada um é uma verdadeira engenhoca! Neles, Selma coloca tudo o que seus olhos encontram pelo chão e a natureza caprichosamente lhe oferece. Cata pedras, folhas, sementes, pedaços de madeira. Cada folha seca vira um barquinho no rio, cada pedrinha, uma montanha.

Em si, ela é uma mistura de coisas. Escritora, artista plástica, cenógrafa, colecionadora de brinquedos, arte educadora e pesquisadora da infância. É conhecida pelas suas viagens pelo sertão mineiro, em busca de “escrever um pequeno tratado de brinquedos de meninos quietos”, como descreveu Guimarães Rosa sobre sua infância. E Guimarães ela buscou. Em Morro da Garça, terra de contos do escritor mineiro, ela encontrou uma casa. Afinal, de paulista, Selma só me parece ter o amor pelo Palmeiras.

Screen Shot 2015-05-06 at 8.37.44 AMDetalhe da Exposição “Meninos Quietos”

Dos passos em Morro da Garça e Cordisburgo, fez uma exposição chamada “Meninos Quietos”, mapeando o brincar através de relatos sobre a infância de Rosa pelo seu tio, Vicente. Nas paredes, escreveu também alguns versos e virou autora. Seu primeiro livro não poderia ter outro nome: “Um pequeno tratado de brinquedos para meninos quietos“.

Não parou aí, recentemente lançou o “ABC da água“, livro inspirado em sua paixão pelos rios que navegou em suas viagens. Foram 40 dias pelos rios madeira, solimões, xingu, negro…depois ficou amiga do barqueiro Rureis, em Alagoas, pelo balanço do São Francisco.

Objetos para brincar, colecionados em diversas viagens

Quando foi convidada por sua amiga e curadora Gabriela Romeu participou da exposição Trilhas do Brincar com seus objetos poéticos. Hoje trabalha como educadora no Museu da Casa Brasileira. Para Selma, subir na vida é subir em árvores. A cada viagem, sobe e tira uma foto. Vira fruto. É flor. Em uma conversa, me disse que sonhava em ser Bispo do Rosário, mas eu ainda acho que sua versão feminina é quase Manoela de Barros.

“Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz .
Hoje eu desenho o cheiro das árvores”
Manoel de Barros

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Selma entre árvores que tanto ama.

Visitei Selma mais de uma vez. Ela sempre me recebe na cozinha de sua casa. Com um bolo gostoso servido na cerâmica lindíssima que sua filha faz enquanto os cachorros espiam ao pé da porta. Secretamente, desconfio que Selma seja mineira. E pergunto como ela continua por São Paulo mesmo depois de conhecer tantos lugares incríveis. Ela explica: “não pertenço a lugar algum, o meu território sou eu e percorrê-lo já é uma caminhada infinita”.

Durante todo o processo para escrever e pesquisar para esse projeto, essa frase não me saiu da cabeça. Obrigada Selma, por me dar de presente um mantra que define bem o que eu busco aqui na Andarilha. Que seja infinita essa trajetória de autoconhecimento. Estamos juntas!


 Texto: Ana Luiza Gomes Fotos: Samuel Macedo e arquivo pessoal da Selma. Obrigada: Bruno Nunes.

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