O fotógrafo Pierre Fatumbi Verger não nasceu entre os seus, mas viveu entre eles. A cor da sua pele não era branca nem negra, era da ponte, untada do sagrado, que unia a Salvador africana e a Àfrica baiana. É acompanhando esse fantasma mensageiro que Gilberto Gil empreende uma viagem entre os continentes irmãos no documentário Pierre Verger – Mensageiro entre Dois Mundos, dirigido por Luiz Buarque de Holanda.
O seduzido Pierre não é protagonista dessa história e nunca quis ser. Ele, que com um facão cortou suas raízes e com o silêncio fincou os brancos pés na terra do Axé dava sempre um passo para trás, porque o que importava era o Candomblé, os Orixás que dançam. Fatumbi, o filho do trovão, de cabeça consagrada a Xangô, fotograva os humanos, mas também os deuses e deusas que ocasionalmente em sua casca fazem morada. Eles permitiam.
Entre um Fatumbi que quase morria e outro que se comunica com outro lado através dos búzios, Gil descobre que o amor de Verger era sua capacidade de acumular conhecimento. Nas observações caladas e respeitosas, ele se especializou em guardar para depois jorrar. Lamentava sua descrença de francês racionalista, sua incapacidade de ter o esquecimento de Orixá. Mas foi justamente seu não pertencimento que o permitiu fotografar e escrever um dos mais preciosos e afetivos registros etnográficos da diáspora africana e de sua religiosidade.
Se pela definição do Pai Agenor, um orixá é um encantado fragmento da natureza, Pierre Verger foi um fragmento encantado de memória.
https://youtu.be/TH24WvibN74
Cecília Garcia nasceu em São Paulo, onde mora e trabalha como jornalista. Filha de um pai inventor-gambiólogo-cientista e uma mãe que acredita-cuida de duendes, Ceci aprendeu a alimentar seus bichos internos e faz deles seres vivos criativos, que a ajudam a construir mundos fantásticos, um tanto orgânicos e labirínticos. Por aqui, é ela quem dá dicas de livros e filmes para o nosso Dicionário de Bolso Andarilha.