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Patuá, por Luiza Wolff

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Pesquisando sobre a palavra patuá, a nossa colaboradora Carol Hoffmann, nos apresentou a antropóloga Luiza Wolff. Nosso olhar estava tão focado mais ao Norte que ficamos surpresos ao saber sobre as suas pesquisas no Rio Grande do Sul.

Nascida em Porto Alegre, a gaúcha se mudou para Pelotas e se deparou com um legado africano muito presente na cultura local. Foi o território perfeito para continuar seus estudos sobre religiões afro-brasileiras através de seus objetos. Pedi à Luiza para buscar algumas fotos da sua gaveta e compartilhar com a gente registros de suas andanças:

A: De onde vem seu interesse pelas religiões afro-brasileiras?

L: O interesse surgiu quando me mudei de Porto Alegre (RS) para Pelotas (RS) para cursar bacharelado em Antropologia, com ênfase em Arqueologia. A minha curiosidade sobre a religião afro-brasileira foi despertada e ficando mais forte porque as casas afro-religiosas em Pelotas são extremamente presentes. Por mais exótico que pareça para quem não conhece a história do Rio Grande do Sul, essa cidade ao sul do sul tem uma cultura afro-brasileira fortíssima.

Pelotas foi uma cidade de produção de charque e provou uma opulência econômica no século XIX a custa do trabalho escravo massivo. As marcas da escravidão na cidade são evidentes e deixou um belo legado cultural como contrapartida da dureza da escravidão. Quando me deparei com uma cidade muito mais negra que a capital gaúcha fiquei muito curiosa para entender o que havia ocorrido e o que ocorre em Pelotas. Assim iniciei a minha aproximação com o tema participando de um projeto de pesquisa sobre arqueologia da escravidão e um ano depois em um projeto de levantamento de territórios quilombolas da região. No terceiro ano da graduação iniciei um projeto de pesquisa pessoal em uma terreira de culto a orixás com o objetivo de compreender os objetos religiosos.

Uma das questões que mais me intriga é a presença importante das casas afro-religiosas e ao mesmo tempo um forte processo de invisibilidade no cotidiano da cidade. Um processo que permeia o preconceito religioso e o medo de um culto desconhecido. Esta foi uma das minhas motivações para continuar a pesquisa: problematizar os objetos religiosos para desmistificar o que é desconhecido.

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A: Conte mais sobre a sua pesquisa de mestrado.

L: Meu tema de pesquisa são os objetos rituais do batuque e da umbanda que pesquiso em duas casas: uma de nação nagô e outra de nação cabinda e de umbanda linha-cruzada. O batuque é o culto dos orixás, que se assemelha e se distância do candomblé, porém também se organiza em nações que são correlacionadas ao legado africano. Pesquiso diferentes nações porque os objetos rituais mudam de acordo com elas e os tipos de culto. Por exemplo, os objetos relacionados a umbanda se alteram em tipos e o que ou quem eles são para a religião em relação ao batuque. De modo similar ocorre com as diferentes nações: o que ou quem os são objetos altera.

A minha perspectiva é que os objetos religiosos ganham vida dentro dos rituais. Persigo eles para compreender o que ou quem eles são e entender por meio deles a ontologia da religião afro-brasileira. Esta “perseguição”  se dá porque não existe religião afro-brasileira sem objetos. Busco entender as pessoas de religião por meio dos objetos e problematizar estas questões dentro da arqueologia e da antropologia. Os objetos foram separados das pessoas, obedecendo uma lógica capitalista de desagregação e fetichização das coisas, que só são consumidas.

Um dos meus objetivos de estudar o batuque e a umbanda édesestigmatizar essas religiões que foram perseguidas porque os brancos/modernos/capitalistas não as entenderam quando entraram em contato com estas práticas religiosas. A lógica da ciência branca/moderna/capitalista não alcança o entendimento das práticas afro-religiosas e por muito tempo as entendeu como fetichistas e pouco “evoluídas”, legado percebido atualmente na senso comum.

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A: Para você, o que é “patuá”? Você carrega patuás?

L: Considero os patuás objetos com poderes mágicos que servem para a proteção dos indivíduos de qualquer ameaça espiritual que possam estar sofrendo. Visualizo os patuás como uns saquinhos que abrigam diversos elementos que são selecionados pelas entidades ou orixás das religiões afro-brasileiras para a proteção dos consulentes. As “coisas” pedidas podem morar dentro de saquinhos de tecido que adquirem os poderes mágicos por meio do axé da benção dos seres sobrenaturais. Estes patuás podem figurar sobre os bastidores de portas de entrada ou janelas das casas.

O que eu acho interessante é o “jogo” de visibilidade e invisibilidade. As proteções são notadas somente quando o observador de alguma maneira conhece as práticas afro-religiosas. Melhor ainda: porque o desconhecido pode trazer uma proteção mais poderosa. Ser invisível e ao mesmo tempo visível é comum aos praticantes das religiões afro-brasileiras desde a sua origem e sentidas até a atualidade; na qual suas práticas são admiradas quando é conveniente e invisibilizadas quando fere o projeto de uma nação miscigenada de alma branca. Mas ninguém vai contra o patuá que protege quem é de axé, melhor não mexer nele, vai saber…

Eu carrego vários objetos de proteção que podem ser considerados patuás! Guardo sete pipocas que ganhei em um ritual de abertura de caminhos dentro de um saquinho plástico dentro da minha carteira. Junto está um pequeno galho de arruda que ganhei de uma preta-velha. Tenho também uma proteção que recebi do povo cigano que fica no meu quarto. Além disso tudo, tenho uma concha que considero um objeto de poder também.


Fotos por Luiza Wolff. Obrigada especial à nossa colaboradora Carol Hoffmann.

 

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