Todas as publicações sobre: Patua

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Livro: E Daí Aconteceu o Encanto

É a árvore desconhecida. Eu não sabia que os cactos podiam crescer para além dos telhados, das casas de Omolú e Oxalá. Ao folhear as páginas do livro Daí Aconteceu o Encanto, senti como se revirando um caleidoscópio apertado contra as pálpebras, a dança dos miúdos vidros coloridos intrigante e indecifrável, tornando impossível parar o giro. Mãe Stella conhece dos Orixás, das heranças, e quando escreve, faz com o que leitor se sinta nessa posição de criança encantada, mas também ignorante. Porque das rainhas e reis de ébano que teceram a história do Candomblé, Mãe Stella herdou a agulha. Para nós também tece, mas não com condescendência. Quando conta no livro a vida de Mãe Aninha, fundadora do terreiro de candomblé Ilê Axé Opô Afonjá, pede um dicionário. É uma colmeia de palavras que fazem mais sentido quando faladas, o mel da boca. Como transformar uma história que deveria ser de voz em um livro? Só trançando, e fazendo isso só com magia, as agulhas do espinho do cacto ancestral. Mãe Stella conta causos, assim, …

Filme: Pierre Verger – Mensageiro entre Dois Mundos

O fotógrafo Pierre Fatumbi Verger não nasceu entre os seus, mas viveu entre eles. A cor da sua pele não era branca nem negra, era da ponte, untada do sagrado, que unia a Salvador africana e a Àfrica baiana. É acompanhando esse fantasma mensageiro que Gilberto Gil empreende uma viagem entre os continentes irmãos no documentário Pierre Verger – Mensageiro entre Dois Mundos, dirigido por Luiz Buarque de Holanda. O seduzido Pierre não é protagonista dessa história e nunca quis ser. Ele, que com um facão cortou suas raízes e com o silêncio fincou os brancos pés na terra do Axé dava sempre um passo para trás, porque o que importava era o Candomblé, os Orixás que dançam. Fatumbi, o filho do trovão, de cabeça consagrada a Xangô, fotograva os humanos, mas também os deuses e deusas que ocasionalmente em sua casca fazem morada. Eles permitiam. Entre um Fatumbi que quase morria e outro que se comunica com outro lado através dos búzios, Gil descobre que o amor de Verger era sua capacidade de acumular …

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Patuá, por Luiza Wolff

Pesquisando sobre a palavra patuá, a nossa colaboradora Carol Hoffmann, nos apresentou a antropóloga Luiza Wolff. Nosso olhar estava tão focado mais ao Norte que ficamos surpresos ao saber sobre as suas pesquisas no Rio Grande do Sul. Nascida em Porto Alegre, a gaúcha se mudou para Pelotas e se deparou com um legado africano muito presente na cultura local. Foi o território perfeito para continuar seus estudos sobre religiões afro-brasileiras através de seus objetos. Pedi à Luiza para buscar algumas fotos da sua gaveta e compartilhar com a gente registros de suas andanças: A: De onde vem seu interesse pelas religiões afro-brasileiras? L: O interesse surgiu quando me mudei de Porto Alegre (RS) para Pelotas (RS) para cursar bacharelado em Antropologia, com ênfase em Arqueologia. A minha curiosidade sobre a religião afro-brasileira foi despertada e ficando mais forte porque as casas afro-religiosas em Pelotas são extremamente presentes. Por mais exótico que pareça para quem não conhece a história do Rio Grande do Sul, essa cidade ao sul do sul tem uma cultura afro-brasileira fortíssima. Pelotas foi uma cidade de produção de charque e provou uma …

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Patuá, por Biancamaria Binazzi

Tive o prazer de ouvir a radialista e produtora cultural Biancamaria Binazzi falando sobre seu trabalho de pesquisa musical no Goma-Laca em uma mesa imperdível do Seminário “Projeto Missão de Pesquisas Folclóricas 1938-2015”, realizado no Centro Cultural São Paulo. Mario de Andrade, como diretor do Departamento de Cultura de São Paulo, organizou em 1938 a Missão de Pesquisas Folclóricas que viajou durante 2 meses pelo Norte e Nordeste do Brasil coletando observações em Cadernetas e fazendo gravações sonoras das mais diversas manifestações culturais populares. Alguns objetos adquiridos dessas andanças fazem parte do acervo do CCSP e foram expostos em outubro de 2015. Diversas atividades como shows e mesas redondas fizeram deste mês uma homenagem às diferenças étnico-raciais, culturais e religiosas brasileiras. Uma das mais importantes ações curatoriais ocorridas na cidade no ano passado, cuja exposição principal ainda está em cartaz, até 06 de março de 2016. Por isso,  fiz questão de convidar Bianca para participar da nossa pergunta “para você, o que é patuá?” e sua resposta não poderia ter sido outra que não uma coletânea de músicas sobre o tema. Depois de escutar tantos cantores brasileiros importantes cantando aos orixás, tive a certeza …

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Encantarias, por Rodrigo Sena

Rodrigo Sena é fotógrafo, documentarista e co-diretor de “Encantarias”. Nascido no Rio, vive em Natal, onde investiga a fé, as religiões, as crenças, os orixás através da câmera. Por aqui, ele conta como muito começou em sua infância e compartilha alguns dos seus principais trabalhos: • Por que fazer o documentário Encantarias? Para diminuir distâncias. Venho de uma educação cristã e, quando criança, se eu cantava a música baiana com todos os seus orixás, levava bronca: “Não cante demônios!”. Quando adulto, procurei saber quem era esse tal de “orixá” ou suposto “demônio”. Fiquei fascinado ao conhecer os Encantados orixás, divindades celestiais que não tinham qualquer relação com demônios e vinham atrelados à uma questão sociocultural. Fiz a escolha de contar essas historias, valorizar e desmistificá-las através de trabalhos como Encantarias [2015], Festa de Deuses e Homens [2011], Herança [2012], entre outros. Ensaio “Afrobrasileiros”, por Rodrigo Sena. • O que é o Coletivo Nação? Coletivo Nação surge da vontade de somar através de um coletivo de fotógrafos de distintas regiões do país com o objetivo de documentar as idiossincrasias regionais …