Brincante, por Gabriela Romeu

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Já falamos do Infâncias através das fotos de seu colaborador Samuel Macedo. O projeto das jornalistas Gabriela Romeu e Marlene Peret é sempre a nossa principal fonte para falar sobre identidade brasileira através de quem está a reinventando: as crianças.

Investigar o que é ser “brincante” é também entender a raiz desse termo em sua formação na nossa cultura. É na infância que acontecem as primeiras vivências dos pequenos em manifestações culturais. Que delícia é poder entrevistar Gabi sobre suas andanças e seu olhar tão afetivo e apaixonante pelos mais jovens brincantes do país:

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Como foi a sua infância? De onde surgiu o projeto Infâncias?

Tive uma infância urbana periférica de pés descalços, sempre encardidos das brincadeiras de mãe-da-rua. Éramos os donos da rua. No bairro operário onde cresci, meninos e meninas viviam em bando, aos bandos. Umas das lembranças que tenho é uma enorme árvore, um chorão, que foi o pique da minha infância.

Mas foi na infância vivida no corpo de minha mãe e de suas irmãs – todas mineiras, conversadeiras – que fiz minha primeira incursão etnográfica pelo universo das muitas infâncias. Ficava fascinada com as lembranças que traziam de sua infância rural, pé na terra, com as brincadeiras de cacarecos do quintal.

 

Acho que o projeto Infâncias nasceu desse desejo de visitar essas lembranças, tão longe e tão perto de todos nós. Nasceu do desejo de embarcar pelo Brasil profundo, vasto de muitas infâncias, e encontrar as crianças em seus barquinhos, penduradas nos pés de pequi, espiando ninhos de passarinhos, engolindo piabinhas, caçadoras de entidades fantásticas como as Caboclinhas. Nasceu do desejo de reviver o que nunca vivi.

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Uma das vertentes do Infâncias é pensar o “brincar”. Por que investigar o brincar?

O Infâncias, que é feito em parceria com a jornalista Marlene Peret e com o fotógrafo Samuel Macedo, tem três eixos principais de pesquisa: o cotidiano, o imaginário e o brincar. É um projeto que faz pequenos inventários da vida das crianças, com rituais, hábitos, cantigas, brinquedos e histórias.

Cada vez mais me fascino com os cotidianos infantis, as pequenas aventuras cotidianas, em que as crianças criam soluções incríveis para seus desafios diários. Mas a entrada no universo da criança é pelo brincar, sua língua mãe, sua terra natal. É falando a língua do brincar que abrimos diálogo com as crianças, que sempre são generosas em nos apresentar seu mundo, seu quintal.

 

Adentrei no tema do brincar com o projeto Mapa do Brincar, uma campanha que coordenei no jornal Folha de S.Paulo que convidou crianças de todo o país a contar suas brincadeiras. Há muitos especialistas, verdadeiros mestres, que já registravam o brincar em seus projetos pelo país. Mas o Mapa foi um projeto pioneiro em registrar o brincar no âmbito nacional. Foi uma estrada que se abriu em mim, trilha sem fim.

Por que fazer um documentário sobre o reisado no Cariri?

Foi em 2009 que ouvi o som da zabumba pela primeira vez no Cariri cearense, um sertão que tem paradeiro dentro de mim (não sei bem onde, Grande Guimarães Rosa). Ela soou fundo. Foi também neste ano que conheci uma menina-rainha, Maria, à época com seis anos, espada em punho, passos ágeis, vestido reluzente ao sol.

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No mesmo Cariri, terra de Padim Ciço, ouvi cantarem assim:

“Reisado é bom
Reisado foi minha infância
Ainda hoje eu tenho lembrança
De um reisado que eu brinquei…”

Esses versos colaram em mim. Para meninas e meninos do Cariri, o reisado é mais do uma manifestação popular, uma brincadeira. É um verdadeiro brinquedo nas mãos dos cabinhas, as crianças do Cariri. Me deu uma vontade de mergulhar mais naquele universo, ouvir suas batidas e seus versos, seguir o reisado pelas ruas.

Desse desejo nasceu o documentário “Meninos e Reis”, um filme que trata de infância, manifestação popular e memória.

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Para você, o que é “brincante”?

É ter pele de purpurina, zabumba no peito, cabelos de fita de cetim.
É ter o aprendizado no corpo, pedagogia do gesto, escola do (con)viver.
É nascer brincando, morrer brincante.


Fotos de Samuel Macedo. Para saber mais: Infâncias.

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