Ambulantes, por Renata Marquez

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Quando pensamos no tema Ambulante, nossa colaboradora da rede Andarilha, Anna Cunha,  sugeriu entrevistarmos a mineira Renata Marquez, doutora em Geografia, professora de Análise Crítica da Arte na UFMG e autora de diversos projetos que percorrem as temáticas territórios e arte; arquitetura e geografia. Sou fã do livro de bolso Domesticidades e de uma das suas contribuições para uma das melhores revistas sobre ocupação de espaço público, a Piseagrama. Por aqui, vamos falar sobre os trabahos Atlas Ambulante, Geografias Portáteis e investigar novos sentidos para a palavra “ambulante”:

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Por que fazer um atlas ambulante?

Há melhor cartógrafo do que uma pessoa ambulante? Um atlas pressupõe a ambulância. Entretanto, se o mapa-múndi era redesenhado a cada nova viagem dos navios quinhentistas, isso pode nos fazer pensar duas coisas: uma, que ali havia muitos mundos outros que foram recusados, combatidos; e outra, que a cartografia era uma atividade diretamente ligada ao poder.

Hoje, gostaríamos de subverter a recusa e o poder cartográfico: o simples ato de andar pela cidade pode revelar-se contra-cartográfico, no sentido de ser um poder deslocado e deslocador. Pode deixar emergir muitas cidades – singulares, especiais, inesquecíveis. Já dizia Maria Rita Kehl: “São Paulo são 12 milhões de cidades, 12 milhões de mapas sentimentais recortados pelas pequenas histórias de vida de seus habitantes”…

No esforço de expandir o conteúdo e a autoridade da produção do conhecimento cartográfico, propusemos entender os vendedores ambulantes como conhecedores e observadores privilegiados da cidade. Após meses de encontros e desencontros, abordamos cinco deles, atuantes em Belo Horizonte.

Ao esquadrinharem o território com os seus passos, diariamente, eles aceitaram construir registros de suas andanças com mapas, histórias, sonoridades, imagens, inventários. Trata-se de um atlas forçosamente inacabado e aberto a novas incorporações: novas singularidades, novas trajetórias de vida, novas sociabilidades (invisíveis nos mapas oficiais) que se dão nas relações sutis entre pessoas, edifícios, bairros, hábitos e saberes tradicionais.

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O que são as Geografias Portáteis?

É uma tese de doutorado, um site, um livro em processo e, fundamentalmente, uma ideia movente de percepção, experiência e transformação do espaço. Em vez de pensar a geografia como ciência dura, fixa, física, realidade alheia a nós, damos a ela a condição de portatibilidade: tentamos abordar a noção de espaço a partir da sua riqueza de pontos de vista, sensibilidades, temporalidades, afetos e agentes.

Elas podem ser ilustradas, por um lado, por um grupo de trabalhos artísticos que redesenham geografias e reorganizam complexidades e, por outro, por experiências ordinárias (como as do Atlas Ambulante, por exemplo) e por entendimentos vindos de outras cosmologias de mundo (como as dos indígenas, por exemplo). São imaginários espaciais que articulam dicotomias modernas ultrapassando-as, dissolvendo-as: dicotomia entre arte e ciência, estética e epistemologia, subjetividade e geografia, cotidiano e ação de transformação.

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Para você, o que é “ambulante”?

O artista Francis Alÿs mudou-se da Bélgica para o México em 1986 e encantou-se com os milhares de cães erradios na Cidade do México. Para ele, importante artista que emprega a ambulância como forma e processo artístico, os cães eram andarilhos ícones da resistência contra a modernidade, caminhantes livres, anônimos de sucesso no confronto com a ordem. “O cão me permite colocar um personagem por trás do sentimento de liberdade que encontrei”, disse ele.

Seguindo os passos de Alÿs, “ambulante” é uma liberdade, uma fluidez, um descaminho. Tornar-se disponível para acontecimentos. Recartografar. Uma forma de ocupar o território simultaneamente desocupando-o. “Ambulante” é um modo de vida e pode vir a se tornar uma pauta, um projeto (ou contra-projeto), uma metodologia de abordagem do espaço.

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Fotos de: Agnaldo e Marlene; Antonio, Robson, Jefferson, Osmar, por Renata Marquez. Obrigada, Anna Cunha

 

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