Ambulantes, por Gabi Gusmão

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Depois de ler o livro Rua dos Inventos de Gabi Gusmão, andar pelas ruas nunca mais foi do mesmo jeito. Todo o trabalho artístico de Gabi explora a relação entre natureza, espaço urbano e a dimensão temporal. Este, então, não poderia ser diferente. Toda a criatividade das ruas coletada por olhos atentos à riqueza Das gambiarras das bicicletas, carrinhos, isopores ambulantes ao mobiliário inventivo resultado de bricolagens e aglutinações de partes. Fico particularmente apaixonada pelos carrinhos de café da Bahia. Quando falamos em ambulante, este trabalho é o primeiro que me vem a mente:

De onde surgiu a ideia de fazer o ensaio “Rua dos Inventos” que virou livro, exposições e site?

A ideia foi se apresentando a cada esquina que eu dobrava e me surpreendia com a simplicidade das obras efêmeras que pareciam invisíveis ou desconfortáveis pra os demais passantes. Fui descobrindo o mundo através de um olhar para as traquitanas da rua e, claro, para os inventores perambulantes das traquitanas. Observar uma armação de objetos aparentemente precária me interessava mais do que muito produto embalado.

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Conte pra gente um pouco sobre o processo de pesquisa. Por quais ruas você caminhou? O que de mais inventivo você observou? Como foi se aproximar e se relacionar com os moradores de ruas?

Pesquisa poema passeio surpreendente pelo aparentemente caótico universo urbano da polifonia sonora e da cacofonia visual. Carros feitos de cacos me ensinaram mais do que os motores do sistema. O sistema atropela e o que mais de inventivo eu conheço no reino da subjetividade é a varinha do João Paixão. No reino da objetividade, os óculos da Dona Pequena. A varinha do João Paixão é um amuleto, um objeto simbólico criado por um andarilho que um dia foi atropelado e criou sua varinha de proteção com pedaços de madeira amarrados por barbantes e sacos com um copinho de plástico na ponta que deveria estar afinado com a altura do amanhecer. Os óculos da Dona Pequena são uma armação sem lente criados para que ela possa abrir os olhos. As pálpebras caídas foram solucionadas com uma adaptação a um par de óculos. João e Dona Pequena se conhecem e grande declaração sobre a obra dele partiu dela. Ela entende que as varinhas que ele espalha pela cidade são um modo de lembrar que ele está vivo.

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Câmara Cascudo, como você cita, costumava dizer que “O maior produto do Brasil ainda é o brasileiro.”Qual personagem entrevistado mais te marcou? Por que?

A conversa com o Walmir, que se diz teológico de todas as coisas que existem na terra, foi a que mais me impressionou pelo delírio e se tornou o prefácio do livro. Eu considero a frase do Cascudo ao mesmo tempo uma homenagem e uma grande ironia. Sabedores de que gente não é produto, acreditamos no que se pode produzir além e apesar do que se estabelece na correnteza tsunâmica da produção de massa. A Rua dos Inventos é um eco da riqueza da rua, não da miséria. Com esse trabalho eu conheci a nobreza.

Para você, o que é “ambulante”?

Quem vive na trilha da vida, quem faz o caminho com os pés, quem dá passos extemporâneos, perambulantes inventores distraídos das metamorfoses do tempo e do espaço.

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Para saber mais: http://www.ruadosinventos.com.br/ Obrigada, Marta Rodrigues.

 

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