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Comentário

“É muito interessante a descentralização da produção cultural no Brasil”, Maureen Bisilliat

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Era uma manhã de segunda feira quando fui convidada a acompanhar uma entrevista com Maureen Bisilliat, artista conhecida por sua importante contribuição à fotografia brasileira. Para a minha surpresa, Maureen topou prolongar a conversa e falar para o Andarilha, contando um pouco sobre suas mais recentes andanças; sem querer muito visitar o passado, mas sim curiosa, atenta às mudanças, vivendo o agora.

Nos encontramos onde o antropólogo Darcy Ribeiro lhe deu a tarefa de caminhar pelo Brasil e por alguns países como Peru, Equador, Bolívia, Guatemala e México em busca de construir o acervo do Pavilhão da Criatividade, no Memorial da América Latina, em São Paulo.

“O Darcy nos escolheu: eu, Jacques, meu marido, e o arquiteto Antonio Marcos Silva. Naquela época, viajávamos por estradas muito ruins; quanto mais difícil era o caminho, melhor, mais aventura, mais apreço às peças compradas. A ideia surgiu pois eu tinha feito muitas fotos para as revistas em lugares bem distantes e eu abria os caminhos para as pesquisas”.

acv_imgcapa_1412363808acv_imgcapa_1412363799Fotos da série “Bumba-meu-boi na Festa de São João” (1978). Acerco IMS.

É ali que ela se lembra do sucesso que foi, durante 20 anos, a sua galeria especializada em arte popular brasileira, O Bode: “chamava assim pois o bode é um animal nobre. Ele se sustenta de qualquer coisa, é uma espécie de resistência feroz. Com pouco, ele é o rei do pedaço”.

Maureen é inglesa de nascimento e, como filha de diplomata, teve uma infância bastante nômade: “inicialmente, eu vim ao Brasil para casar com um algodoeiro, o pai da minha primeira filha. Depois de sete anos nos separamos e, dois anos depois, passei novamente pelo Brasil e conheci meu segundo marido, Jacques. Voltei para ficar em 1957”.

Após estudar artes plásticas em Paris, foi trabalhar na Editora Abril, entre 1964 e 1972, onde se encontrou na fotografia – mais exatamente durante o raro período na história da imprensa brasileira, quando a revista Realidades lhe dava a oportunidade de levar o tempo que precisasse em suas pautas pelo país.

“Justamente por me acostumar a conhecer tantos lugares e comunidades diferentes nessas andanças, eu buscava algo mais próximo do real, por isso, a fotografia chegou em minha vida após a pintura.”

 

Sou surpreendida quando ela me confessa que sua real paixão é a edição e não necessariamente a fotografia. “Eu nunca gostei muito mesmo de fotografar. Eu sou ótima editora de fotos! Eu gostava desta parte da fotografia, a seleção das fotos, muito mais do que o momento de fotografar. Antes você não via o que ia sendo registrado e tinha-se aquela dúvida de como estava ficando. Hoje você já vê. É ruim; é bom. É ruim; é bom. Então, o que eu gosto é de sequenciar as imagens depois”.

Desse prazer nasceu seu trabalho audiovisual ao qual ela se dedica atualmente: “eu tenho uma pequena ilha de edição em casa e durante os últimos 5 anos estou coletando e organizando centenas de materiais, fruto da minha trajetória, para fazer um documentário longa-metragem chamado Equivalências. O que eu mais gosto e sou boa mesmo é em editar memórias; é trabalhar no acervo dessas memórias.”

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Fotos da série “Pele Preta” (1965) e uma entrevista com o “menino-anjo” das fotos, Assis, em 2014. Acervo IMS.

Mas por que o vídeo? “Eu passei para o audiovisual, pois eu adoro a palavra e o gesto. Na fotografia, você tem que, de certa maneira, transpor o movimento para o estático sem perder esse gestual. Mas eu sempre gostei da palavra”.

Faz sentido. Da leitura de grandes autores brasileiros nasceram os seus maiores ensaios como “A João Guimarães Rosa”, inspirado em Grande Sertão: Veredas, ou mesmo, “Bahia Amada Amado”, instigado pela obra de Jorge Amado. “Alguém me deu o Grande Sertão, comecei a ler e querer conhecer cada lugar para saber até que ponto o autor foi diretamente inspirado pela região e pelas pessoas”. Da palavra surgiu sua fotografia e à ela retorna nos vídeos.

“Você é como Manoel de Barros, adora desacostumar palavras?” brinco. “Isso! Eu adoro cutucar a palavra, sabe?”

 

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Da série “A João Guimarães Rosa” (1966). Acervo IMS.

Comento a Maureen que muitos artistas citam seu nome e o de Claudia Andujar quando pergunto quais são as grandes referências deles na fotografia. “Eu adoro o trabalho de Claudia Andujar. Ela é fantástica! Ela tem algo a mais do que eu, ela zelou pelas condições territoriais dos ianomamis. Enquanto eu dediquei um capítulo da minha vida ao Xingu, ela se dedicou uma vida aos ianomamis.”

Mas então, quais são as referências e inspirações de Maureen?

“Recentemente, eu estive na Bahia, em Feira de Santana, para o Festival de Fotografia do Sertão. E achei muito interessante esse encontro com jovens, sabe? Os palestrantes muito bem escolhidos, os ouvintes mais ainda. O Tiago Santana é especial, ele faz uma dupla com o Audálio Dantas, jornalista, que é muitíssimo interessante. Outra pessoa que adorei conhecer foi o fotógrafo paraibano Aurílio Santos, fundador do Acervo Cultura Zé Ramalho, em Brejo da Cruz, cidade natal do cantor. Ele criou esse centro por paixão e as fotos que ele faz são belíssimas. Eu o achei interessante”.

Fico realmente feliz ao ver o entusiasmo de Maureen ao falar que o que a inspira é a nova geração de fotógrafos. Não necessariamente por uma nova técnica ou olhar, mas pelo simples e importante fato de muitos deles não virem dos grandes centros do país – e sim de regiões consideradas marginais até então.

“São desses encontros que eu acredito que vão florescer novos fotógrafos. O bom é estar acontecendo tudo isso fora dos grandes centros. Isso atrai pessoas, pessoas de todo o tipo, pessoas fora do comum”.

 

Conto a ela que o Andarilha busca justamente disseminar e estimular essa produção que transborda fronteiras – fruto de um desejo que cada um tenha propriedade de sua voz para falar do e sobre o seu lugar, seja ele qual for.

“É muito interessante pensar sobre essa descentralização da produção cultural no Brasil!” repete ela duas vezes para o meu gravador. Na terceira, exclamamos juntas.

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Da série Xingu (1975). Acervo IMS.


Maureen Bisilliat estudou pintura com André Lhote em Paris (1955) e no Art Students League em Nova Iorque (1957). Mudou-se para o Brasil em 1957 e trabalhou como fotojornalista para a Editora Abril entre 1964 e 1972. Foi proprietária da Galeria de Arte Popular O Bode (1972 a 1992). Recebeu bolsa da John Simon Guggenheim Foundation, Estados Unidos (1970), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (1981/1987), da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (1984/1987) e da Japan Foundation (1987). Formou o acervo de arte popular do Pavilhão da Criatividade do Memorial da América Latina, São Paulo, o qual dirige desde 1988. Recebeu o prêmio Melhor Fotógrafo da Associação dos Críticos de Arte de São Paulo (1987). [breve currículo da Coleção Pirelli]


Obrigada Adélia Borges e Maureen Bisilliat. Foto do topo da série Caranguejeiras (1968).

 

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