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Por que você fotografa? Por Fábio Nascimento

Andarilha_Fabio Nascimento_08

Fábio Nascimento é mineiro e reside em São Paulo, mas você o encontra mesmo é pelo Brasil e pelo mundo contando histórias importantes através da fotografia. Sempre questionador, trabalhar com Fábio é treinar um olho crítico e atento. É inspirador saber de suas andanças e investigações sobre temas que abordam, em sua maioria, questões de minorias e sócio-ambientais. Em tempos de crimes ambientais tão graves acontecendo no Brasil, fico feliz em convidar Fábio para compartilhar um pouco sobre a importância de seu fazer:

Andarilha_Fabio Nascimento_07Tempestade_08“Antes da Tempestade” Greenpeace Brasil Pará, Brasil, 2015.

Como é fazer reportagens para, por exemplo, a National Geographic, Green Peace, Unesco/Museu do Índio?

Te escrevo agora tendo voltado de uma série de viagens, documentando situações diversas, como a resistência do povo Munduruku contra o projeto de hidrelétricas no rio Tapajós, ou os índios Ka’apor se organizando de maneira autônoma para defender seu território de invasores madeireiros, ou ainda um web-documentário sobre energia solar.

Bem, fazer essas reportagens, antes de mais nada, está muito ligado ao que me interessa, às pessoas, lugares e costumes com quais me importo. Pouco a pouco tenho conseguido trazer isso para ocupar uma parte maior do que faço como trabalho, e é uma sincera satisfação contar essas histórias que são pouco ouvidas.

Uma parte importante disso vem de um interesse cotidiano de me informar, ter conversas e pesquisar sobre aquilo que interessa, e certas ideias viram projetos, em forma de reportagem, filme, alguma coisa que dê visibilidade ao assunto; muitas vezes esses assuntos vem até você, se tornam novos interesses, se somam aos outros.

Provavelmente, a parte mais cativante seja estar em campo, com essas pessoas, nestes lugares, e tentar de alguma forma contar aquela história, aquilo que querem mostrar e dizer para outras pessoas. Provavelmente, não. Sem dúvidas é o mais vivo e apaixonante de fazer.

Cada projeto tem seu jeito de terminar, como as reportagens na Amazônia devem ser vistas logo, pois a situação pede assim. Outros, como o filme “Nossa Pintura”, são mais longos, precisam de mais tempo em todas as etapas. Mas acredito que, no fim, todas elas tem o mesmo objetivo de dar visibilidade à certas vozes daquelas pouco ouvidas.

Andarilha_Fabio Nascimento_01unnamed (1) unnamed“Nossa Pintura”, Pará, Brasil

Qual reportagem, até então, foi a que mais te marcou? Por que?

Eu diria que duas me marcaram mais, um quando fui ao Benin filmar os rituais animistas, fazendo o documentário “Iya Shango”, que também virou exposição, e outra quando fui à aldeia Moxkarakô, dos Kayapó, onde fiz o “Nossa Pintura”, junto com o Thiago Oliveira.

iya-shango-21 “Iya Shango” Kétou, Benin, 2009

No Benin a intensidade de tudo foi o mais marcante, da hostilidade do clima aos rituais, tudo se apresentava pelos extremos. Ali ficamos com uma pequena equipe filmando por mais de um mês, entre momentos da mais longa espera aos tambores ensurdecedores nas madrugadas, e tudo era novo, a maneira de filmar, a luz, o cansaço.

Quando fui à Amazônia pela primeira vez tive o privilégio de estar fazendo um projeto junto aos Kayapó, com o inestimável convite do Thiago Oliveira e Museu do Índio, quando fizemos o “Nossa Pintura”. Me sentia honrado em estar sendo recebido por um grupo que já admirava, e mais ainda por poder ter contado um pouco da história deles, ter mostrado algo tão valioso da cultura Mebengokrê-Kayapó, como é a pintura corporal.

Conte um pouco sobre o processo de fazer a exposição/documentário “nossa Pintura”. O que te levou a fazer esse registro?

Como parte do projeto Kukradjá Nhipêjx, do Museu do Índio, fui convidado pelo antropólogo e fotógrafo Thiago Oliveira, para documentar uma oficina que aconteceria na aldeia Moxkarakô, como parte de um projeto de salvaguarda de patrimônio imaterial. Durante o processo de produção e organização da viagem, junto com Axuapé, Bepunu e Pawire Kayapó, bolsistas do projeto, começamos a nos dar conta que seria possível documentar além da oficina de pintura corporal, que poderíamos filmar também este processo de pintura, desde a preparação do jenipapo que usam como tinta, até padrões gráficos que eles se pintam.

O que foi além das nossas expectativas foi o fato de, ao filmarmos tudo isso, tendo conversas e os acompanhado em vários momentos, nós acabamos por filmar também muitas reflexões que o povo tem à respeito do contato com os brancos, sobre a manutenção e transmissão da sua cultura.

Por fim acabamos construindo duas maneiras de mostrar este trabalho, no documentário e na exposição. Além disso o Thiago acaba de lançar um belo livro de fotografias dedicado ao tema, feito em parceria com o antropólogo Andre Demarchi, chamado “Metoro Kukradja”.

Tapajos_site_06 (1)Andarilha_Fabio Nascimento_06“Tapajós: a luta pelo rio da vida” Greenpeace Brasil Pará, Brasil, 2014

Por que você fotografa?

Diria que meu interesse começa nas pessoas, as histórias delas. Com o tempo venho descobrindo que a fotografia é um jeito de contar histórias que eu gosto, que acho que posso contribuir de alguma forma. Percebo que as pessoas, algumas vezes, se sensibilizam com alguma situação que chega até elas por uma fotografia. Filmar também é uma boa ferramenta, que tenho feito bastante, e pra certas histórias funciona muito bem.

 

Tempestade_03Tempestade_18“Antes da Tempestade” Greenpeace Brasil Pará, Brasil, 2015.


Para saber mais: www.fabio-nascimento.com

 

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