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Comentário

“Meu movimento de autoexílio busca por compreender o aqui”, Eliza Capai

No devagar depressa dos tempos_diretora Eliza Capai

Ouvir a voz doce de Eliza é se deliciar com suas histórias e se inspirar na sua pessoa de coração inteiro, mesmo quando partido. Inteireza é a palavra. Imagino que, este movimento de estar totalmente presente por onde anda, traga muitos questionamentos, conflitos, angústias. Mas sinto que é o seu jeito de ser – em si. Nunca antes uma entrevistada me ensinou tanto sobre esse estado que busco: ser andarilha. Não só pelos seus deslocamentos físicos, mas pela sua vontade de se conhecer através do outro. Seja aqui, no sertão, do outro lado do mundo. Aliado a isso, Eliza transborda todas as fronteiras para aquela que a muito inquieta: a do gênero. Que prazer poder abrir essa Semana Especial Andarilha com sua voz, Eliza:

A: Você se apresenta como uma documentarista itinerante. Como jornalista, de onde vem a sua paixão pelo documentário?

E: Eu sou filha de fotógrafo e fui fazer curso de jornalismo. Bem no início da faculdade, eu que gostava muito de escrever comecei a ficar um pouco decepcionada de como me ensinavam o jornalismo. Tudo que era mais poético era cortado dos textos. Hoje acho que há mais espaço para outros tipos de jornalismo, mas naquele momento em 1999 ainda não tinha a popularização da internet e era bem diferente. Eu fui perdendo o interesse por esse texto e fui chegando perto da fotografia. Até que na primeira aula de vídeo, eu pirei. Eu já tinha tido a experiência de tentar tirar uma foto e não conseguir porque eu queria tirar 3 fotos na sequência e depois eu fui entender que eu estava mesmo pensando em um vídeo. Na primeira disciplina de audiovisual, eu curti muito.

Esse formato clássico de jornalismo (principalmente do jornal impresso), por um lado dá uma informação rápida, mas por outro acaba transformando a informação em números, em fatos isolados e, pra mim, acaba perdendo o que tem de mais interessante nos fatos que são as pessoas por trás desses fatos. Foi dessa curiosidade pelas pessoas que eu fui naturalmente me aproximando do documentário. Pelo desejo de escutar as histórias, de dar tempo para as pessoas falarem. Foi muito instintivo essa transição. Eu não tinha muito conhecimento sobre documentário, não tinha estudado isso, visto muitos exemplos. Eu fui em campo em busca do que seria a pauta ao invés de fazer virar um lead ou qualquer coisa mais formal. Busquei entender como essa pauta estava na vida das pessoas e, através das histórias pessoais, entender os assuntos pautados.

Eu também vim de uma família muito nômade, toda espalhada pelo mundo. Em vários cantos do Brasil e também fora. Eu nasci no Rio, cresci no ES e fui pra SP fazer faculdade e trabalhar. Comecei a dar umas escapadas e viajar. Primeiro o nordeste, depois, assim que eu me formei, comprei minha primeira câmera e fui de férias pra Bolívia. Comecei a fazer documentário por lá. Viajei muito fazendo matérias.

Em 2008, 5 anos depois de formar, eu estava com o coração dilacerado, tinha terminado com o primeiro namorado com quem eu morava junto. Foi então que eu consegui fechar alguns projetos: fazer um quadro para o GNT, um para o site da TAL e uma série para a revista Fórum sobre imigração de mulheres. Em 2007, a America Central era o primeiro subcontinente que passava a ter mais mulheres migrando do que homens. Não sei se isso era real, mas foi o meu gancho para essa viagem.

Eu fui do Panamá até NY em 9 meses escrevendo e acompanhando mulheres que tinham saído de casa em busca de uma vida melhor. Muitas vezes para dar aos filhos o que nunca tinham tido, outras vezes fugindo de situações de violência – em busca de um sonho americano, onde tudo ia mudar. E eu era uma mulher em busca de uma vida melhor também, fazendo um trabalho que acreditava, em busca de ser livre, de fazer um jornalismo que me desse tesão. Eu cheguei ao final entendendo muito sobre a migração de mulheres.

Essa viagem me marcou profundamente e eu me entendi como Andarilha nesse projeto. Foi mesmo terapêutico. Eu fazia várias entrevistas no centro das cidades e depois ia pra algum lugar paradisíaco naquele país para escrever a matéria e editar os videos que estava fazendo. Eu vivia uma felicidade de ter muito tesão pelo que eu estava fazendo. Eu ficava com a sensação de que ia dar, em algum momento, uma merda muito grande. Eu não acreditava que eu poderia ser tão feliz na vida, foi um sentimento que começou a virar um medo de sofrer qualquer tipo de violência. Mas cada vez foi dando mais certo e eu fui me conectando cada vez mais com pessoas incríveis. E aí eu tive um clique: a vida pode ser sim incrível.

Não teve então mais como eu não querer mais que essa vida fosse, no mínimo, incrível. Claro que temos momentos difíceis, altos e baixos. Tudo isso me afeta, mas existe um lugar de paz interna que é cada vez mais crescente. Ajuda quando eu estou conhecendo outros lugares, viajando, caminhando. Depois disso propus vários projetos relacionados a viagens. Tentar entender muito outras culturas, mas também entender a minha própria cultura. Meu movimento de autoexílio e viagem tem muito mais a busca por compreender o aqui do que os lugares onde eu vou. 

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A: Dentro desse interesse pelos movimentos imigratórios, como surgiu a ideia de fazer “Deslocadas”?

E: Quando eu estava no final da viagem de 2008, eu conheci a Val dentro do elevador. Por sermos as duas brasileiras, a gente começou a conversar e eu quis saber mais da história dela e fomos para um café. No que ela contou, eu vi um resumo de tudo que eu tinha vivenciado nos últimos meses sobre migrações de mulheres. E pensei: achei uma personagem que conseguia resumir em uma vida muito daquilo que estava pesquisando. Quer dizer, em duas vidas, na da Val e da sua mãe. Eu propus à ela fazermos um filme sobre sua história. Ela abraçou a ideia e usou aquele momento como uma terapia para ela. Ela ia voltar para o Brasil pela primeira vez depois de tantos anos e eu tive a sorte de acompanhá-la nessa viagem pelos lugares que ela tinha vivido no Brasil: São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco. 

A: Por que fazer o curta “Severinas” sobre ser mulher no sertão do Piauí?

E: Depois de investigar a migrações de mulheres, eu continuei me aproximando da temática de gênero. E as pautas são muito pesadas, são de violência. Não consigo aceitar que: por ser mulher, a gente ganhe menos; por ser mulher, a gente apanhe mais. Falar sobre gênero é falar sobre problemas.

No meio disso tudo, eu li uma matéria que falava sobre o livro Vozes do Bolsa Família, sobre como através do Bolsa Família, começava uma transformação da situação de autonomia feminina no Brasil. Eu achei incrível! Era uma oportunidade de falar sobre machismo em especial no sertão no Nordeste, uma região onde a escravidão deixou marcas profundas, como a diferença de renda entre homens e mulheres e também pelo legado da figura do Senhor, do poder masculino e da submissão muito forte feminina. O desejo foi falar sobre esse problema histórico a partir de uma possível solução que era esse movimento de autonomia feminina. Mulheres começaram a ter a única fonte de renda da família e isso teve um impacto grande. Quando esse alguém é a mulher da casa e não o homem é quando ela pode não se submeter tanto ao marido e negociar mais as questões em casa.

A base do feminismo, de Simone de Beauvoir, é a ideia de “ter a renda”. Se você é submissa economicamente, você não consegue levantar a voz. Se você vira então a única pessoa com renda fixa, o que acontece? E o desdobramento disso é: para as mulheres receberem isso, seus filhos têm que ir pra escola. Para mim, foi muito forte quando eu vi, de um lado, uma geração de mulheres da minha idade que tinham vivido a escravidão – com rostos e expressões de quem viveu essa escravidão – e, de outro lado, suas filhas bochechudas – bem nutridas, que vão para a escola. Ver essa transformação tão grande entre uma geração apenas foi muito especial.

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A: A mulher como tema, aliás, está em diversos trabalhos seus. Fico curiosa se isto não é também reflexo de questões pessoais suas como uma documentarista caminhando sozinha pela mundo. Como é o seu processo de trabalho?

E: Geralmente eu tento verba para uma equipe, não consigo e vou sozinha (risos). Posto isso, quando eu chego num lugar, eu sou muito instintiva e deixo rolar. Às vezes, eu acabo indo sem nenhum contato. E vou conhecendo as pessoas no vagão de trem, num papo com alguém do albergue, em um livro que eu lia e citava naquele autor. No caso do Severinas, por exemplo, eu tava sem decidir onde eu ia. Eu pensava em ir em Guaribas, onde começou o Fome Zero, mas ninguém atendia o telefone por lá, até que o orelhão na frente da pousada respondeu a minha chamada: “vem aqui que minha sobrinha te leva e em 10 minutos você já conheceu Guaribas inteira”. Foi justamente o que aconteceu, em meia tarde eu já tinha conhecido metade das personagens que estão em Severinas.

Existe mesmo essa abertura de ir caminhando. Se por um lado existe uma fragilidade muito grande de ser uma mulher andando sozinha com uma quantidade visível de equipamento/dinheiro; por outro, essa fragilidade eu sinto que pode ser um trunfo. Uma mina com uma câmera é uma real abertura; eu sinto que as pessoas se abrem de verdade, sem medo de mim. Se eu tivesse com uma equipe, talvez a disponibilidade dessas pessoas seria diferente, com receio de muita gente pra entrar na casa delas. Eu sinto que a minha fraqueza é minha força. 

Screen Shot 2015-12-08 at 8.55.47 AM

A: Dos caminhos que percorre como documentarista, qual te marcou mais e por que?

E: Eu não saberia dizer um só não. Eu acho que alguns me marcaram de forma muito única e me transformaram muito. Teve uma viagem que fiz em 2007 para a Amazônia e que foi onde eu entendi que eu poderia pagar minha viagem com meu próprio trabalho e isso me marcou profissionalmente, no sentido de acreditar, me jogar no que eu gostaria de fazer, que eu conseguiria verba para realizar esses trabalhos.

Em 2008, na America Central, eu acreditei que a vida poderia ser incrível e que prazer e trabalho poderiam se alinhar de forma contundente. Passei a entender, profundamente, uma temática; virando de certa forma uma especialista. Em 2010, eu fiquei 7 meses na África e foi onde surgiu meu primeiro longa que é o “Tão Longe é Aqui”. Se com a Val em 2008 não consegui ter fôlego para fazer o material virar um longa, em 2010, mais madura profissionalmente, consegui, através do financiamento coletivo, ir além e fazer um filme da viagem que tinha como objetivo principal ser uma série de matérias para o canal GNT. Em 2014 veio o “Severinas” que foi um exercício de ficar duas semanas no mesmo lugar, em um vilarejo. Nunca tinha ficado tanto tempo e criado relações tão profundas com as personagens. Isso me marcou.

E esse ano de 2015 também está sendo importante por fazer projetos de mais fôlego. Fiz um quadro de “Políticas Públicas Afirmativas” para o canal GNT. Eu fui atrás de abordagens positivas para falar de problemas nossos. Peguei temas tabus como aborto, drogas, educação sexual, sistema carcerários e fui buscar bons exemplos no mundo, em lugares onde essas questões tem soluções positivas. Espero que isso vire um longa em algum momento e será uma série para o Canal Futura.

Além disso, esse ano eu fiz junto com a Natalia Viana uma viagem pra Angola, cujo objetivo era investigar as empresas brasileiras lá e acabamos sendo investigadas também pelo governo de lá. Fomos falar com familiares de alguns presos políticos e com alguns ativistas. A nossa viagem virou uma coisa completamente diferente do planejado. Foi uma experiência super forte, por entender em primeira pessoa as questões que eu lia sobre a ditadura brasileira. Eu tive muita empatia com os jovens ativistas que conheci, essas pessoas não tinham proteção nenhuma, pelo contrário. Foi uma viagem muito forte, para entender a crueldade humana de uma maneira que eu nunca tinha conhecido. A nossa decisão na hora de fazer o produto final foi tornar essa fala nossa em primeira pessoa como parte da narrativa –para garantir credibilidade com as pessoas com quem a gente conversou. 

Então, eu acho que é um amadurecimento como documentarista. Estar muito presente na própria vida vai gerando isso: várias lembranças são muitos especiais e cada uma é um novo degrau para aprender algo novo. 


Obrigada, Eliza Capai e Cecília Garcia, colaboradora da nossa Rede Andarilha.

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